sábado, dezembro 10, 2005

todos os eus e mais alguns - parte III


10 anos sem 80

Pois em verdade eu já fui rapaz, já fui donzela,
fui arbusto, pássaro, ardente peixe do mar.

(Empédocles, IX:569)

o epigrama do empédocles é lindo, mas não tem nada a ver com o assunto do post - uma boa maneira de começar com um ar mais respeitável.
na verdade, ele me levou a lembrar desse blogo, veículo espúrio de todos meus eus. e foi quando dei por mim e percebi. há 10 anos morreu a 80g, minha primeira e única revista.

como mann explicou no primeiro editorial, éramos três garotos da faculdade de comunicação - depois quatro, com a entrada do juliano. a vida lá tinha suas coisas boas: a primavera, os bailezinhos, as borboletas, o sapato engraxado, os chocolates godiva, os aguapés do laguinho. um belo dia tudo mudou. o gato do villela caiu do sétimo andar e desssa vez não sobreviveu, eu cortei o lóbulo da orelha protegendo a gisele do seu cafetão na prado jr., e saint exupery deixou de ser engraçado para o mann. então descobrimos que nada do que o mundo dizia fazia sentido. e bem, foi uma boa desculpa para montar uma revista literária. é bem verdade que de revista não tinha nada, não era nada mais que um pernicioso instrumento para divulgarmos todo e qualquer tipo de texto, odes eróticas, contos pérfidos, poemas insalubérrimos, receitas de space cake e equações de cálculo infinitesimal. mas foi uma forma de fazer as desrazões do mundo passarem mais fagueiras. era 1994.

durou quatro números, o quarto aliás não foi distribuído, pois percebemos que a revista estava corrompida: fora editada em peige meiquer. terrível, terrível, afinal, até então era feita da melhor maneira possível, com os originais - algumas páginas feitas com papel mimeografado, outras com uma velha olivetti da mãe do villela, e mesmo algumas com uma velha impressora matricial - sendo colados numa mistura de cola branca e natunóbilis, que acabava entornando por cima de tudo, mas curiosamente grudava que era uma beleza. ateamos fogo nas duas caixas com todos os exemplares do último número e uma coleção do tailor caldwell do mann - que convencemos a se livrar - em um ritual waimiri atroari que o juliano sabia decor, a vodka natasha substituindo com admirável compostura a poção xamânica, e letras do lou reed e uivos do villela se mesclando com os estalos de língua e verborragias védicas do mann. as chamas subiam altas enquanto dançavamos ao redor da cremação, todos nus, até os soldados da praia do forte imbuí, em niterói - lugar escolhido para a cerimônia -, atirarem para o alto e voltarmos a nado para o rio de janeiro. acabamos pegando uma carona numa traineira que apontava para copacabana e lá desembarcamos, vestidos de nu, na frente do copacabana palace, e fomos tomar chá no terraço para curar a ressaca. não sei se foi exatamente assim, mas é assim que gosto de me lembrar. era 1995. foram bons tempos.

cada um dos quatro números foi dedicado a alguns de nossos heróis. o primeiro para a eterna lídia vance (que deus cure as suas cáries); para o pai de todos os porres, o gênio henry chinaski; e para o brilhante cafezeiro mad dog. outros foram homenageados, sallinger, fante, lirio mario da costa, não me lembro de todos. como era costume, dedico esse post a meus cúmplices oliver mann, gustavo villela e juliano borges. que krishna tenha piedade de nós e nossas patifarias.

a revista foi-se, assim como as últimas garrafas de tatu – carinhoso apelido, talvez pela sensação de estar embaixo da terra ao acordar –, de uma caixa que um de nós tinha comprado ao ganhar na raspadinha – gastamos o prêmio todo em putas, tatus e kinder ovo.

tempos depois, resolvi mudar de ares, deixar o rio e seus engarrafamentos centopéicos. um dia, peguei meu uninho mille, coloquei minha enciclopédia barsa, meu atari, as obras completas do machado de assis e a minha coleção do zéfiro dentro do porta malas, e cruzei o cerrado em direção a ávalon. Mas, bem, essa é outra estória.

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4 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Um novo capítulo da mais linda história que até aqui vem sendo escrita.

5:06 AM  
Anonymous Anônimo said...

Bom, como testemunha ocular, nada tenho a acrescentar.
Façamos um brinde à eterna memória da 80g!

11:39 AM  
Blogger Gustavo Weber said...

saudades nina. saudades. e como diria orson wells. é tudo verdade. sempre. :-)

12:25 PM  
Blogger Henrique Fróes said...

Na juventude, todos queremos ser Bukowskis.. Mas depois descobrimos que os livros dele são uma merda.. Bem, pelo menos eu acho, assim como os do Henry Miller.. Sou mais o Fausto Wolff..

3:42 PM  

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