quinta-feira, fevereiro 14, 2008

todos os eus e mais alguns - parte XII (ainda)

(continuando o post anterior...)

Com um amigo, num café (não, dessa vez não é o inagaki).

– E o que ela disse?
– Nossa...
– ...
– ...
– ...
– ...
– Então, o que ela disse?
– "Nossa". Ela disse isso. “Nossa”.
– Ah...
– Pois é.
– Humm... só?
– Só. Ela me auscultou e...
– O quê?
– Auscultou, escutou com o coisinha...
– Eu sei o que é “auscultar”.
– Pois ela me auscultou e disse, “nossa”...
– Uau...
– Pois é...
– Pesado...
– Cruel.
– E... mais nada?
– Nada. Sabe, cismei. Nada! Absolutamente nada. Não disse nada. Não perguntou nada. Nem se eu estava expectorando. Cuspindo sangue. A cor do catarro. Da coriza. Esses detalhes escatológicos que eles adoram.
– Ela deve saber.
– ?
– Pelo “nossa”. Ela deve ter sacado tudo isso na hora do “nossa”.
– ?
– Ué, não tem japoneses, chineses, taichi paimei banzai kungfu panda, essas coisas, que fazem diagnóstico segurando o pulso do sujeito? Já vi isso, existe. Pois é isso. Ela te escuta, digo, te ausculta, e sabe se você ta encatarrado, a cor do seu catarro, temperatura, pressão, viscosidade, tudo. Normal...
– ...

– E... que cor?
– ?
– Que cor que tá?
– Em cima ou embaixo?
– Hein?
– Em cima ou embaixo?
– Porra, Weber... ce ta cagando catarro?
– ... Quando assôo o nariz ou quando eu tusso? Em cima, nas fossas nasais, ou embaixo, nos pulmões?
– Ah... Os dois.
– Verde em cima. Amarelo nos pulmões.
– Cruzes.
– Pois é... me deixou preocupado. Vi na Internet. Quatro tipos de coriza e catarro. Transparente, branco, verde, amarelo. Transparente ou branco é virose, não tem o que fazer, esperar. Mas o amarelo e o verde é infecção bacteriana.
– E o azul?
– ?
– O azul.
– Que azul?
– O azul, o azul.
– Que azul? Verde amarelo azul e branco? Agora catarro tem que sair na cor da bandeira? Catarro nacionalista?
– Azul, ué. Da onde vem o verde? Tem o amarelo, cor básica. O verde não é cor básica. É mistura de amarelo, básico, e azul, básico. Amarelo e azul. E o azul?
– Sei lá da onde vem o azul do catarro verde. Devo ter brincado com uma caneta bic quando era pequeno, enfiei no nariz, vazou pra dentro. Agora a tinta misturou com o catarro amarelo, ficou verde. Satisfeito?
– Ta, ta. Só queria...
– O que eu ia dizer... atenção... o que eu ia dizer: ela não me passou antibiótico... só água.
– ?
– Água. Muita água. Cinco litros de água por dia.
– Cinco litros?
– Cinco litros. Por cinco dias.
– Cinco dias?
– Cinco dias.
– Cinco por cinco? O que ela é, numerologista? Isso é mandinga, macumba. Ou pior, ela quer é te afogar. Ou afogar as bactérias. Quem souber nadar vai sobreviver. Você ou elas.
– E nada de antibiótico...
– Ei... É isso.
– ?
– É isso. O azul. Aí, vai por mim. Bebe água não.
– ?
– Cianofíceas.
– O quê?
– Cianofíceas. Algas azuis. É um tipo de bactéria. Azul. Você deve estar com uma infecção de cianofíceas também. Daí o verde. Amarelo e azul: verde. Agora, presta atenção. Cianofíceas não se afogam. Elas vivem na água. Não vão morrer, não importa o quanto você beba de água. Cinco, dez, vinte litros. As amarelas podem até morrer. As cianofíceas não.
– ...
– ...

– ...
– ...
– Acho que vou numa farmácia, ver se o cara me sugere um antibiótico.
– Se você começar a expectorar o...o... azul...
– Se isso acontecer, eu te aviso.
– Avisa.
– Eu aviso o Faustão...
– ?
– Esquece.
– ...

– ...
– ...
– Tem bactéria azul mesmo? Tem isso?
– Bactérias azuis. Perigosas...
– Perigosas?
– Perigosíssimas... Tóxicas.
– Cianobitas é...
– Hein?
– O nome dessas bactérias. Você disse. Cianobitas.
– Cianofíceas.
– O que eu disse. Isso aí.
– Disse cenobitas.
– Disse?
– Disse... e... ce sabe o que são né, os cenobitas...
– Sei.
– Bom filme.
– Bom. Hellraiser. Bom.
– Muito bom.
– Bom.
– Tinha algum azul?
– ?
– Cianobita?
– ?
– Azul. Que nem a alga. De repente tinha um azul. Pra justificar o nome, parecido com o da sua alga...
– Não é ciano. É ceno. Cenobitas...
– Ceno, ciano...
– Não, ceno é ceno, ciano é ciano.
– E o que é ceno?
– ... Deve vir de koinos... koiné... comum, básico. Essas coisas. Grego.
– Grego?
– Clássico. Grego clássico.
– ?
– History Channel...
– Ah...
– E, vem cá, e ciano... é o que afinal?
– Azul, cara, azul.
– Claro claro... tipo oceano? O azul. O ciano. O azul. O azul do mar... imensidão azul... essas coisas... que é?
– ...
– Esquece... você que veio com a estória do azul.
– Cor básica. Tava faltando pra explicar seu ectoplasma aí.
– Aí, não se diz cor básica.
– Não?
– Não. Diz primária. Cor primária.
– Sei... Primary Colors. Tipo o filme do Clinton fingindo que é o Travolta.
– O contrário.
– Esse também, esse também... Travolta. Tem que rezar todos os dias e agradecer a São Tarantino...
– O Tarantino é bom...
– Bom...
– Ce viu o curta?
– Dele?
– Do seu Tomelo. E do seu Jorge. Falando do Tarantino.

– Vi. Parece isso né.
– O que.
– O Curta. A gente, aqui, falando besteira. Que nem eles. Num café. Que nem nos filmes do Tarantino.
– Ou do Jarmusch.

– Isso...
– ...
– ...
– Se bem que os diálogos deles são melhores...
– São não...
– São não?
– Nada...
– Pode ser...
– Tudo a mesma bosta...
–...
– ...
– Aí, vou nessa. Quanto...?
– Deixa que eu pago. Ce ta doente.
– Beleza.
– Melhoras.
– Valeu.
– E... não esquece...
– ?
– Se ficar... a cor...
– Ah...meus cenobitas...
– Isso... Me liga.
– Tá.

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terça-feira, fevereiro 12, 2008

todos os eus e mais alguns - parte XII

– Respire fundo.
– Shhhh.....rumpf...coff... runfgrh... coff coff...
Ela tira o estetoscópio das minhas costas. Deve ter me olhado sem paciência. Não sei, estou de costas. Diz:
– Sem tossir, por favor.
Não paro de tossir. Por isso perder o almoço e esperar para ser encaixado. Eu vou encaixar o senhor, cochichou a atendente, preocupada. Só fiz tossir forte dez minutos. Ininterruptos. Encaixado em dois tempos. No meu caso, não preciso forçar a tosse. Ela vem. Forte. Por isso a consulta. Tosse. Tusso. Dez minutos. Pronto. Encaixado.
O primeiro exame que ela faz, auscultar, desde que sem tossir, por favor. Eu tento explicar. Ela: sem tossir, por favor.
Tento.
– Hummfffff.... rurgh...cofff... ahnnn... roarhg... coff coff...
Ela tira o estetoscópio das minhas costas. De novo. Deve ter balançado negativamente a cabeça. Feito uma cara de desgosto. Enfado. Derrota. Estou de costas. Não digo nada. Tento de novo. Digo antes “agora vai”, tentando animá-la, espero ela se posicionar e respiro, segurando a tosse com toda força e concentração do mundo.
– Nossa...
Ela diz nossa. Clínica geral. A cada dez casos que atende, nove devem ser de gripe. Ou tosse. Como a minha. E ela diz pra mim: nossa. Ela me ausculta, a mim, e diz: nossa. Ela não deve dizer nossa pra todo mundo. Ou diz. Sim, deve dizer. Pra todos. Será mineira ela? Claro. Mineiros dizem muito nossa. Nossa isso, nossa aquilo, dizem à toa, sem motivo nenhum, nossa, trem besta. Nossa. Nóss. Nu. Não. Ela é carioca. Cariocas raramente dizem nossa. E quando dizem nossa é pra não dizer “caralho fudeu mermão!”. Uma médica não pode dizer caralho fudeu, diz nossa, pra não assustar.
Pneumonia dupla, tuberculose, um desses hantavírus, retrovírus, pantovírus. Uma hepatite pulmonar, raríssima, meu senhor. Um vazamento de bílis nos bronquíolos. O senhor não tem pulmão, nenhum dos dois, respira por guelras. E elas estão com câncer. Há um navio cargueiro liliputiano dentro dos seus pulmões, meu senhor, e uma maria fumaça e uma escola de samba, e a bateria da escola está atravessada, causando arritmia cardíaca letal. Três dias de vida? Dois. Talvez horas.
Ela vai à mesa e senta. Espera que eu me recomponha e sente a sua frente. Demoro. Sei que demoro. Nem me dou. Rápido?, qual, tudo acabado. Tudo acabado, sem pressa. Demorar nos botões, nos cadarços. Pensar sobre eles. Velhos esses sapatos, rá, esses sapatos!, passamos muito juntos, e um sorriso melancólico. Um nossa e pronto, agora é olhar pela janela e me emocionar com um bem-te-vi na árvore, uma mosquinha zunindo, o vento. Com o cotonete jogado na lixeira do consultório. Nunca mais o meu. Nunca mais. Não, não penso nada disso. Ela não deixa.
– O senhor beba água. Muita água. Volte aqui em cinco dias.
Demoro a entender. Cinco dias... cinco? Não eram dois? Horas? Cotonete, sapato, melancolia... cinco dias. Água. E eu, a boca aberta, palerma. Respirei? Não, senão tinha tossido. Respiro agora? E a água?
Enfim respiro, tusso e balbucio.
– Mas... quanto...?
Ela pensa, nem isso, e num átimo de segundo.
– Cinco litros. Por dia. Água. Cinco dias. E o senhor volta aqui.
(continua? continuo?)

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sábado, janeiro 06, 2007

todos os eus e mais alguns - parte XI

“O que você acha?”
“Vai levar um caldo. Na primeira.”
“Vai. Mas na segunda.”
“Feito.”
“Feito.”
Esperávamos ele romper a arrebentação. Furava uma onda, submergia, emergia um pouco mais à frente, e mais uma vez, e mais uma vez, até chegar lá fora. Esperava, nós esperávamos. Esperar. Esperar. O tempo do mar. Até descer a primeira onda. Se caísse logo de início, a aposta era minha. Se levasse um caldo na segunda, era dele. Se não caísse, apostávamos no próximo surfista que entrasse no mar.
As apostas dos sucos eram sempre com gente nova, que não conhecíamos, ou com os garotos que estavam começando. Era moeda pequena. Sanduíches ficavam para dias e surfistas especiais. Dias de ressaca, gente como Teco, Daniel, Bicudo, Marcão, Pípou. Esses eram da casa, tinham experiência. Viviam naquele mar. No caso deles, as apostas ganhavam ares mais sérios. Tínhamos que acertar quantas vezes cairiam da prancha enquanto estivessem na água surfando. Difícil. Só Jacó tinha acertado até então, uma vez, com Daniel. Cinco quedas. Em duas horas na água, Daniel caiu cinco vezes. Era julho. O mar estava alto, de ressaca, chovia, o Arpoador estava perigosíssimo, só três surfistas na água e dois salva-vidas, loucos, pegando ondas de dois metros de altura. E nós, eu e Jacó, na areia, assistindo, debaixo de chuva fina. Eu no meu umbrela, Jacó no seu inseparável capote. Jacó ganhou um sanduíche de peru com abacaxi. Foi assim durante seis meses. Dias de sol, de chuva fina, de vento. Não importava. Estávamos sempre lá.
Naquele ano, em 1998, tinha aula ali perto, de inglês, na rua Paul Redfern, sempre pela manhã, por volta das oito. Toda terça. Terminava a aula e ia andando até o Arpoador, passear. Um dia, Jacó sentou ao meu lado na areia. Sujeito grande, uns trinta e tantos, cabeça raspada, roupas sujas, rasgadas. Fedia a cachaça. Perguntou se eu era surfista. Disse que já tinha sido, segurei meus óculos, mostrei, agora não dá mais. Ele olhou meu cigarro e disse, assim é que não dá, garoto, assim é que não dá. Perguntei se ele tinha sido surfista. Ele me olhou sério, pensando se eu estava troçando. Viu que não estava. Parou e olhou a arrebentação, pensou. Disse que o seu trabalho era mais pra lá, no azul.
“Mas agora não dá mais”, e olhou para o vazio onde deveria estar sua perna direita.
foto por Gustavo Weber

Jacó tinha sido pescador na colônia de pescadores Z-13, no posto seis de Copacabana. Pescava desde que se dava por gente. Conhecia todo aquele litoral, da Marambaia à Itacoatiara. As ilhas, todas. Um dia, sua rede prendeu no motor do barco. Nunca tinha acontecido, um erro de amador, o piloto da traineira era novo. Estavam a alguns quilômetros da costa, na imensidão azul. Ele e mais dois pularam na água, faca nos dentes. Passaram quase duas horas dentro d´água, desfazendo os nós, cortando o mínimo possível a rede. A água estava com cheiro de sangue, alguns peixes tinham sido tragados pela hélice do barco. Sentiu um puxão para debaixo d´água. Outro. A água se encheu com seu sangue. Os outros dois o tiraram da água, fizeram um torniquete na altura da virilha, o cação havia destroçado sua coxa direita. Perdeu muito sangue, passou um mês no hospital, amputaram a perna, sobreviveu. Nunca mais subiu num barco. Não tem lugar mim dentro de barco, nunca mais, disse ele.
Enquanto fazíamos nossas apostas na beira do mar, Jacó me contava suas estórias de pescador. De quando seu barco ficou à deriva por quatro dias, motor quebrado, e foram parar na baía de Angra. De quando era criança ainda, e viu seu pai arpoar uma baleia. De quando foi mordido por uma tartaruga em Copacabana. Tartaruga não morde gente assim, disse eu. Pois ela me mordeu, respondeu rindo-se. Não há tartarugas por lá, retruquei. Ele me mostrou uma cicatriz horrível na batata da perna. Olhei desconfiado, comentei, você é pescador Jacó, você sabe o que falam de pescadores. Ele riu até.
Morava na Rocinha. Perguntei se não era mais comum o pessoal da colônia morar no Morro do Pavão. Ele desconversou. Não gostava de falar da colônia. Um dia perguntei por quê. Havia brigado com eles, culpado seus colegas de barco pelo infortúnio. Saiu da colônia. Não poderia ficar no Pavão, foi morar na Rocinha. Começou a mendigar. A beber. Passava metade do dia lá, na praia, olhando a água. O Arpoador fica a quinhentos metros da colônia. Era o mais perto que conseguia chegar.
Entre uma aposta e outra, sempre que podia, eu trazia o assunto da colônia na conversa. Perguntei se ele não podia ficar na areia, fazendo as redes. Sabia que os pescadores mais velhos costumam ficar mais em terra, trabalhando com as redes, ajudando na venda. Ele cismava, não dizia nada. Um dia me disse, você sabe quem é o meu pai? Claudionor.
“Seu Nonô?”
“Isso. Nonô é meu pai.”
Nonô era o pescador mais antigo da Colônia. Devia ter oitenta anos. Não entrava mais no mar, ficava responsável pelas redes, fabricá-las, consertá-las.
“Eu briguei com meu pai. Foi ele que me expulsou da colônia. Disse que era errado eu culpar meus colegas. Era coisa do mar, e a gente não culpa o mar. Que era para eu me desculpar, pedir perdão a eles pelo que andei dizendo. Eu peguei minhas coisas e fui embora.”
Perguntei por que ele passava tanto tempo na beira do mar. Ele disse, sem pensar:
“Perto de muita água, tudo é feliz.”
“Quem... quem te disse isso?”
“Meu pai sempre diz”.
“Essa frase é de Guimarães Rosa. Um escritor famoso.” E ri.
“Por que você tá rindo? Eu posso ter cultura garoto!”
“Não é isso Jacó. Você é pescador. O Guimarães Rosa era mineiro. Minas não tem mar...”
“Mas ele bem que entendia de mar”, e rimos.
“...”
“...”
“Jacó, volta pra colônia. Lá você vai ser mais feliz.”
“Um dia.”
“Vamos fazer uma aposta. Você volta pra colônia se eu te fizer chorar.”
“?”
“Te dou um livro. Você lê. Se o livro te fizer chorar, você volta.”
Ele riu e riu. Não parava de rir.
“O que é Jacó?”, perguntei, brincando indignação.
“Eu não sei ler!”
“Eu leio pra você. Pronto. Eu leio. Feito?”
“Feito.” “...”
“O que é Jacó?”
“Não é a bíblia não, né garoto?”
“Não Jacó, não é a bíblia.”
“A bom. Feito.”
Apareci com o livro do Hemingway para ele. O velho e o mar. Passamos uma manhã e uma tarde na praia. Li o livro. Ele ouvia sério. Às vezes fazia comentários, eu fazia isso, eu fiz aquilo. Expliquei para ele que o nome do protagonista, Santiago, o velho do livro, era o mesmo nome dele. Jacó. Jacob. Iago. Santo Iago. Ficou pensativo. O livro terminou. Ele não chorou. Parado, na frente do mar do Arpoador, pegou um punhado de areia na praia e ficou brincando um instante. Levantou com suas muletas, foi na beira do mar, lavou a mão, fez o em-nome-do-padre. Ficou um tempo parado na frente do mar, voltou pra mim e disse.
“Tá. Você ganhou garoto. Vamos lá amanhã.”
“Seu Nonô bom dia.”
“Bom dia meu jovem.”
“Eu fiquei sabendo que o senhor é o melhor por aqui em fazer rede de vôlei.”
Ele riu. Sabia quer ele fazia redes de vôlei. Era o melhor.
“Queria encomendar uma rede.”
“Pois não.”
“Mas queria te pedir um favor. Quero que o senhor faça com alguém.”
Jacó chegou de mansinho. Estava atrás de uma amendoeira. Pediu a benção ao pai. Ele olhou, olhou. Com olhos de por quê.
“A rede vai demorar...”
“Não tem problema.”
“... Esse aí não sabe nada de rede. Vai demorar.”
“Não tem problema.”
Parou. Olhou pra Jacó. Pra mim. Pensou. Pediu pra sair da mesa. Estávamos atrapalhando. Estavam no meio de um jogo de tranca. Toda manhã, por volta das dez, os pescadores mais velhos jogavam tranca. Foi até um sujeito que analisava umas redes, perto da água. Apontou de lá para o filho. Conversaram. Eu e Jacó permanecemos ali, duros, tensos. Jacó trincava os dentes e forçava as muletas contra o chão. Voltou.
“O senhor acerte o preço com aquele homem ali.”
Agradeci. Estava indo embora, já na calçada, seu Nonô gritou meu nome, e veio em minha direção de vagar. Olhou pra mim, os olhos duros.
“Obrigado meu filho. Obrigado.”
Naquele verão fui morar em Brasília. Nunca mais havia passado pela colônia. Há duas semanas, durante o natal, voltei ao Rio e passei por lá. Encontrei seu Nonô, quase noventa, na mesma mesa de tranca. Ele me reconheceu, pediu licença, veio falar comigo. Perguntei como estava o trabalho. Ele perguntou como estava a rede. Disse que meu amigo, que havia comprado a rede, nunca havia tido nenhum problema. A rede tinha oito anos e parecia nova. Ele sorriu, se ofereceu para qualquer conserto, se um dia fosse necessário. Perguntei por Jacó.
“Morreu.”
“?”
“...”
“...”
“Morreu. Atropelado. Aqui, na Atlântica. Há um ano.”
Não sabia para onde olhar. Não me vinham palavras, sequer minhas condolências. Apertei sua mão, disse que tinha sido bom revê-lo. Ele puxou minha mão, fez que eu me curvasse em sua direção. Sussurrou.
“Ele estava feliz meu filho. Isso é bom.”
“...”
“Dizem que perto de muita água, tudo é feliz meu filho.”
Olhou com aqueles olhos de pedra pra mim. Largou a minha mão, baixou a cabeça em silêncio, virou e foi andando de vagar de volta ao seu jogo de tranca.


foto por Miriam Poppe

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quinta-feira, novembro 16, 2006

todos os eus e mais alguns - parte X

"Egyetlen, Érintetlen, Lefordíthatatlan"
(Kocsis Ferenc)

Foi o Cris que me disse, viu numa livraria. Cismei. Como podia, ele não sabia magiar.
– Você não é o único louco por aqui.
– Ei ei, eu não sou louco, só gosto de línguas esdrúxulas. Semana passada estava em Praga, aprendendo checo. Por quatro dias. Deu até pra aprender a comprar pão com alho.
– Pão com alho?
– Eu decorei a frase Cris, mas não sabia qual das palavras era pão, qual era alho, enfim, na dúvida, passei quatro dias indo na padaria pedindo pão com alho.
– Língua estranha... parece russo...
– Parece alemão...
– Isso, imagine a língua russa. Tire as vogais. Agora imagine a língua alemã. Tire as vogais. O que sobrar das duas, você pega e mistura. Dá checo.
– Eu tenho Fim de Jogo do Beckett em checo. É lindo! Acho que tem três vogais na primeira página. Uma página inteira, três vogais. Já tentou ler? Tantos estalos, vlak, tlak, plok, tok, acho que o Beckett ia ter adorado ver isso!
E rimos até.
– Checo é tão difícil que, se você sabe escrever nessa língua, vira presidente do país. Olha o Vaclav Havel.
– Tem o Kafka.
– Escrevia em alemão.
– Hum... o Kundera...
– Em francês.
– É...
E caímos na gargalhada.
– Magiar é melhor, não é tão duro. Mas não dá pra encaixar em nada. Às vezes parece turco, às vezes, romeno, às vezes, checo, às vezes, chinês. Louco. Lindo. Já pediu pra Bori falar em magiar com você? Há! Fale pra ela, Seretlek, seretlek kicsim! Ela vai adorar. Ou te dar um tapa.
– Seretlek kicsim... o que significa isso Cris? Não estou xingando ela ou nada do gênero certo?
– Pergunte a ela. Ela vai adorar, confie em mim. Mas, sério, sabe o que faço? Pego os livros que uso na aula, Shakespeare, Pinter, Beckett, e procuro as versões em magiar. Tento, página por página, linha por linha, uma palavra de cada vez. É exaustivo, mas é uma delícia. Com um bom dicionário é rápido, acho que termino a peça do Pinter em, vejamos... dois meses.
E riu sozinho da própria loucura. Uma peça. Algumas dúzias de páginas. Dois meses.
– Concordo. Magiar parece lindo. No trem pra cá, uma velhinha me ensinou um pouco.
– ?
– Ok, me ensinou uma palavra. Estação de trem. Pu. Ficou repetindo. Pu, tchu tchu tchu, pu, tchu tchu tchu, fazendo com a mão um trenzinho estacionando numa plataforma.
– Como era mesmo?, perguntou sorrindo.
– Pu, chu chu chu, pu, chu chu chu...
E se desdobrou de tanto rir.
– Qual o problema?
– A velhinha te enganou, meu caro. Pu não é estação de trem. Pu é a abreviação, como ut ou u é abreviação de utca, rua. Estação de trem é pályaudvar. Ninguém fala pu, isso não existe.
– Como?
– Pályaudvar.
– Como?
– Pályaudvar. Pa-ly-au-dvar.
– Esquece.
A velhinha de cabelos cor de bolinho de beterraba havia me pregado uma peça. Tão solícita e atenciosa com seu tchu tchu tchu. Ou era louca, ou estaria ainda agora rindo da traquinagem. Depois dessa, passei a suspeitar de toda e qualquer velhinha de cabelos cor de bolinho de beterraba.
– Mas, sobre o livro que você viu. Cris, como sabe que era ele?
– Um romance? Não há muitos romances com esse nome. Na verdade, acho que nenhum. Só esse. Vi na pilha de livros em magiar, na seção de ficção. Só pode ser ele.
– A capa, como era?
– Não lembro bem... se não me engano tinha aquela estátua grande de Jesus Cristo, que fica no alto de um morro. É no Rio de Janeiro, não é? Confere?
Era ele. Só poderia ser. Budapeste, do Chico. Em magiar.

Saí atrás do livro. Cris me deu uma lista de livrarias. O escocês estava em Budapeste há um mês, era professor de um cursinho de inglês. E rato de livraria nas horas vagas. Expliquei para ele a importância do livro do Chico. Um dos principais assuntos do livro era a dificuldade do idioma magiar e Chico brincava ao longo de todo o romance com isso. A ironia da ironia seria encontrar esse livro na língua que o autor usara como material para as brincadeiras e jogos do romance. Perguntei, Cris, será que eles falam inglês, comprar um livro pode ser complicado. Ele riu, disse que não haveria problema.
Primeira tentativa, Megastore Alexandra, na Karoly Körút. Quatro andares de livraria. Sim, de livros, Não havia DVDs, CDs, só livros e um discreto café. Entrei excitado, pensei, não deve ser difícil achar sozinho, e comecei a procurar pelas prateleiras. Um mar de palavras estranhas brotava na minha frente. Seções de kitalálás, elképzelés, prozairodalom, tudományos-fantasztikus irodalom, költemények. Depois de zanzar pelo primeiro andar inteiro, não conseguia mais focar os olhos, não adiantava, nada se parecia com nada, onde estavam os radicais latinos, gregos, saxões? Exausto, procurei uma atendente.
– Do you speak English?
– Nem... (não) Csak magyar. Csak magyar. (apenas magiar).
– French?
– Nem. Csak magyar.
– Deutsch?
– Nem
- Español?
– Nem
– Russian! (claro, eu não falo russo)
– Nem
– Portuguese? Japanese? Chinese?
– Nem.
– Puta que o pariu.
– Nem.
Nada de pânico. Não tinha morrido de fome em Praga, passara três dias comendo pão com alho em checo, poderia sair dessa também.
– Book...
– Yô.
– Name of the book: Budapest.
– Budapest? Budapest! Yô, Budapest!
– Yô yô yô, Budapest!, disse eu exultante.
A menina pediu para que eu a acompanhasse. Finalmente, Budapest do Chico. Mal cabia em mim de tanta excitação. Paramos. Olhei para a seção: idegenforgalom. Embaixo: turizmus. Essa palavra eu conhecia. Olhei os livros: Frommer, Lonely Planet, Berlitz, todos guias turísticos para a maravilhosa cidade de Budapeste.
– Puta que o pariu.
– Nem.

Segunda tentativa. Nyugati Tér. Que é tér, mesmo, não é abreviação de nada. Tér, praça. Mais uma megastore. Mais quatro andares. Mais uma atendente, as mesmas perguntas, do you speak english, claro que não e por aí vai. Mencionei que o livro se chamava Budapeste, mais uma vez a moça levantou as sobrancelhas, sorriu e me levou até a seção de turismo, feliz pelo dever cumprido. Eu, aceitando a trama kafkiana, segui placidamente. Olhei as prateleiras e disse com a melhor cara de enfado que pude encontrar, turismuz nem, tursimuz nem.
– Nem?
– Nem.
Segue-se agora o diálogo entre mim e a atendente. Eu falando em inglês, ela, em magiar. Reproduzi o diálogo ao Cris, que me ajudou a traduzi-lo. Como não sabia patavina de magiar, não havia entendido o que acontecera até o Cris me explicar. Detalhe, cs em magiar se pronuncia como um X.
– The author. Buarque. The author, Buarque (o autor, Buarque. O autor, Buarque)
Ela foi a um terminal de computador. Perguntou.
– Szerzö Buarque? (autor Buarque?)
– No. Sergio is the father. Chico is the author! (Sergio é o pai, Chico é o autor)
– Csikó? (cavalo?)
– Yes, Chico!
– Csiko is Szerzö? (o autor é um cavalo?)
– No! Chico is Chico, Sergio is Sergio. The author of Budapest is Chico! (Chico é Chico, Sergio é Sergio, o autor de Budapeste é Chico)
– Mi? (o que?)
– No, not you, Chico. See, I like Chico, I don’t like Sergio. Chico writes novels. (Não, você não, o Chico. Eu gosto do Chico, não gosto do Sergio. O Chico escreve romances).
– Te... (você) szeret... (gosta) csiko? (cavalo)
– What the fuck... (que diabos...)
– Fuck? Te szeret baszik csiko? (você gosta de transar com cavalos?)
– Chico! Yes. Chico!
Imediatamente, a atendente chamou um segurança e fui expulso da livraria. Provavelmente, a partir daquele momento estaria banido de todas as livrarias de Budapeste por minha zoofilia.
Não preciso descrever pormenorizadamente que me tornei a piada do albergue onde estava. Sim, me perguntavam em cada canto se eu falava magiar, sim, me perguntavam se eu sentia saudades do meu cavalo no Brasil, sim, até me deram um pônei de pelúcia para ajudar em minhas noites solitárias em Budapeste. Mas Cris me convenceu de que eu não deveria esmorecer. O livro estava lá. Em algum lugar. Cris era Cris, assim como Chico era Chico e tudo mais, e, quanto a mim, bom, depois do último vexame, dava por encerrada a busca pelo livro do cavalo.

Os dias passaram fagueiros em Budapeste. Na verdade, em Buda. Como o famigerado ghost-writer do livro do Chico, estava hospedado em Buda. No meu penúltimo dia na cidade, caminhava pela Bartók Bela, vindo do Danúbio, e pensava como era engraçado o costume na Hungria de se colocar o primeiro nome depois do sobrenome. O compositor Bela Bartók era, em sua terra natal, Bartok Bela. Franz Liszt era Liszt Franz. Imediatamente me corrigi. Liszt Ferenc. Ferenc. Ferenc era Franz em magiar. Ferenc era Francisco em magiar. Parei no meio da rua, ocupado com meus pensamentos, quando percebi que estava na frente de uma livraria. Bartok, Liszt, Ferenc, Francisco, músicos, Chico, músico, seria um sinal?, o pensamento viajava comigo enquanto olhava apalermadamente as vitrines da livraria quando uma atendente apareceu no lado de fora da loja e ofereceu ajuda. Desconfiei. Seria uma cilada para me prenderem, meu rosto estaria estampado em todas as livrarias de Budapeste, procura-se brasileiro maluco zoófilo? Arrisquei e entrei na loja.
Já conhecedor da ladainha de Budapestes, guias turísticos, cavalos, autores e que tais, levei a atendente a um terminal de computador e declamei, em alto e bom magiar: regény (romance), Budapest. Szerzö, Buarque. A moça, rapidamente, teclou as informações. Esperou. Esperou. Esperou. Enfim respondeu. Yô.
– Yô?
– Yô.
– Yô, yô! Não sei se me ajoelhei, se a tirei para dançar, se chorei debruçado ao balcão. Sei que, depois da minha brevíssima epifania, enfiei a cara no monitor do computador e vi que, sim, Budapest estava lá, sim, em magiar, e havia quatro exemplares do livro. Após outra longa batalha para me fazer entender, levei todos os quatro da loja.

À noite, no albergue, mostrei o livro ao Cris. Ele olhou e sorriu. Entendia a minha felicidade, apenas ele poderia entender, apenas ele sabia que aquilo era mais que um troféu, mais que uma tara por línguas esdrúxulas. Seria a piada final. O que os ingleses dizem, the twist on the tale, a reviravolta final. Cris abriu o livro aleatoriamente, leu uma frase. Parou. Olhou pra mim e disse, “Agora sim. Agora sim, temos o final da sua estória. Apropriado, muito apropriado”. Mostrou pra mim a frase e traduziu. Aquela, enfim, era a piada final.
...
Na estória de Budapeste de Chico, há um momento em que o protagonista José Costa e sua mulher vão ao consulado húngaro no Rio de Janeiro. É uma noite em homenagem a um poeta húngaro famoso, e os dois são os únicos não húngaros no lugar. O poeta declama um poema conhecido, que, ao final de cada estrofe, traz três palavras. Elas são repetidas por todos os presentes, que conhecem o poema de cor. Ao final de cada estrofe, repetem, “Egyetlen, Érintetlen, Lefordíthatatlan”. Ao final de cada estrofe, “Egyetlen, Érintetlen, Lefordíthatatlan”. Foram as palavras lidas por Cris no livro. Depois de minha odisséia pelo idioma magiar, era de Chico a última brincadeira. Eram suas as últimas palavras. “Egyetlen, Érintetlen, Lefordíthatatlan”.

“Único, imaculado, intraduzível”.

Ah, sim, o nome do poeta húngaro, no livro, é Koscis Ferenc. Ferenc. Francisco. Chico.

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quarta-feira, outubro 25, 2006

todos os eus e mais alguns - parte IX

Keleti Pu, 11 da noite, foto por gustavo weber


Fui dar em Budapeste ao contrário, o trás pra frente de toda a viagem, meu fim, deveria ter sido o início, mas a passagem Frankfurt Budapeste era muito cara, Frankfurt Viena era mais em conta, ora, pensei, é um círculo, não, uma meia lua, enfim, não importa onde começar, em vez de Budapeste, Praga, Berlim e Viena, que tal Viena, Berlim, Praga e Budapeste?, virei o mapa, e, zás-trás, fiz meu trás pra frente, do início para o fim, e lá cheguei cansado, quatro semanas mochilando, sete horas de trem de Praga, atraso na saída em Nadrazi Holesovike, esperava aflito meu trem chegar, mas estava retido em Dresden, greve dos maquinistas alemães, pediam diminuição da carga horária, aumento de salários e lanches noturnos, ao menos foi o que me disse em magiar a minúscula e lépida senhora húngara que sentou ao meu lado, sempre sorridente, me oferecendo bolinhos cor de beterraba a cada dois minutos, que soltavam migalhas por toda a cabine, lanches noturnos, provavelmente bolinhos de beterraba, a velha tinha dezenas deles, deveria ser fornecedora dos maquinistas teuto-piqueteiros, imaginava, enquanto tentava compreender como havia entendido a greve, os maquinistas, a redução de horas, ou eu havia inventado, não, havia greve, havia bolinhos de beterraba, eu havia entendido a conversa, tudo em magiar, ou era checo, não, era magiar, mas ainda não sabia, checo, magiar, búlgaro, romeno, Pepe me diria mais tarde, já em Budapeste, é impossível não se comunicar, sábio Pepe, embora eu tenha errado de estação em Praga, perguntara à senhora do balcão de passagens se meu trem sairia da estação central, Hlavni Nadrazi, Hlavni Nadrazi?, e ela yó yó, qual yó o que, estação errada, atravessei metade da cidade, cheguei na estação certa, Holesovice, esbaforido, com medo de perder o trem, e o trem, parado em Dresden, aguardando seu carregamento de bolinhos de beterraba, sem que eu soubesse, e eu angustiado perguntava aos funcionários da estação, misturando checo e alemão, kde vlak nach Budapest, vlak nach Budapest?, e eles respondiam yó yó, sorriam e seguiam, e do outro lado da estação a velhinha dos bolinhos de beterraba me olhava, e, compadecida, se aproximou e perguntou Budapest?, eu respondi yó yó, ela pegou minha mão, me levou à plataforma correta, uma tartaruga gigante e desengonçada, vinte quilos de mochila nas costas, guiada pela minúscula e serelepe senhora de cabelos cor de bolinho de beterraba, ela apontou um letreiro repleto de consoantes, acentos e alguns números, e num estalo entendi, nosso trem estava atrasado, ela me ofereceu um bolinho cor de cabelo de velhinha serelepe, aceitei um e agradeci, dekuji, dekuji vam, ela sorriu, ainda não sabia que era húngara, eu agradecera em checo, ou alemão, ou russo, esqueceria tudo em breve para me afogar na língua dos hunos perdidos da Europa, afinal Viena, Berlim e Praga eram passagem, Westbanhof, Ostbanhof, Hauptbanhof, Nadrazi Hlavni, Nadrazi Holesovice estações passageiras, para enfim Keleti Pu, estação derradeira, ponto final, Budapeste, Pu, estação em magiar, pu, pu, tchu tchu tchu, pu, tchu tchu tchu, Keleti Pu, tchu tchu tchu, repetia a velha na cabine do trem, já a caminho de Budapeste, e ria-se, fazendo com as mãos seu trem imaginário estacionar na poltrona-plataforma entre mim e ela, para que eu entendesse o que significava a palavra pu, e ao chegar em Keleti, tartarugueei para fora da estação, e as luzes amarelas de mercúrio borraram os contornos da velhinha, que já seguia serelépida bem à frente, e por duas vezes virou-se e repetiu ao longe pu tchu tchu tchu, pu tchu tchu tchu e me acenou um sincero adeus antes de sumir, minhas primeiras palavras em magiar, Budapeste foi meu fim, ou apenas o começo disso tudo, o trás pra frente de toda a viagem.

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quarta-feira, março 15, 2006

todos os eus e mais alguns - parte VIII

há alguns dias, passei minha famosa receita de petit gateau para um amigo, que me fez prometer publicá-la aqui no blog. quem? o mundialmente conhecido sr. inagaki. em vez da receita, vai a minha conversa com ele, na íntegra - ou quase. vejam o que sai quando dois homens se juntam para falar de culinária.
estávamos no MSN, quando comentei sobre a facilidade que tenho com a língua francesa...

Inagaki diz: de francês só falo champagne, garçon, renault, isabelle adjani e olhe lá.
gustavo diz: e eu bidé, abajour, mousse, crepe, petit gateau. e la buzanfã! que definitivamente é uma palavra em francês. na verdade, não falo francês não. mas, como bom zelig, me ponha numa roda de franceses, e me acabo de tanto falar oui.
Inagaki diz: Adoro petit gateau. Mas essa frase soa tão homossexual...
gustavo diz: é verdade. e eu adoro la buzanfã. oui, j'aime la buzanfã, bien sure. ei, eu tenho uma receita simples de petit gateau. se estiver interessado.
Inagaki diz: ôpa, manda aí! ou publica no blog, compartilhe essas informações importantes com seus leitores!
gustavo diz: hummm. pode ser. acho que sei de cabeça. quer mesmo?
Inagaki diz: Claro! eu adoro petit gateau!
gustavo diz: ok. ingredientes: 100 gramas de manteiga sem sal. meia barra (100 gramas) de chocolate meio amargo. uma xícara de açúcar. dois ovos inteiros - se bem que vc pode tirar a casca - e duas claras. e duas colheres de chá de farinha. Só. Agora vamos brincar. preparo:
gustavo diz: derreta o chocolate e a manteiga em banho maria - sabe, aquele negócio de colocar uma panela apoiada em outra cheia d'água, fervendo. Importante, derreta os ingredientes em banho maria, nunca em banho, Maria. A não ser que a Maria goste.
Inagaki diz: Anotado. Mas em todo o caso, vou ver se conheço alguma Maria que tope.
gustavo diz: enquanto vc derrete o chocolate e a manteiga, coloque numa batedeira o açúcar, os dois ovos - não os seus, seria realmente doloroso, os de galinha mesmo, e sem a casca. e duas claras. pode ser a nunes e a averbuck. bata. mas bate mesmo. espanque. Bate com vontade!
Inagaki diz: Pode encher de porrada?
gustavo diz: como se vc fosse um cafetão ensinando suas meninas a se comportarem direitim.
Inagaki diz: Ok, ok, anotado!
gustavo diz: ina, é serio. essa receita tem dois segredos, o primeiro é esse. vc tem que bater pacas, deixar essa mistura crescer. ficar numa consistência bem cremosa. mas beeeem cremosa. eu deixo bater no mínimo por quinze minutos. às vezes chego a ajudar, rodando a cumbuca na direção contrária - sei lá, sou meio louco mesmo. depois de bater e fazer crescer, reserve - adoro isso, reserve! pegue a calda de chocolate - nessa hora, o chocolate e a manteiga devem ter derretido. se quiser, antes, enquanto derrete, dê uma misturada.
Inagaki diz: Reserve. essa palavra fica linda numa receita!
gustavo diz: verdade. não confio em nenhuma receita em que não seja imprescindível reservar algo. Senão não vale, perde todo o charme. Bom, espere a calda esfriar um pouco. coloque a calda num outro recipiente pra bater. bata. a razão de bater a calda é deixá-la homogênea. tirar os pedacinhos de manteiga e chocolate que não tiverem dissolvido. depois de bater e perceber que a calda tá homogenea - é rapidinho -, retire da batedeira e pegue o creme que tinha batido antes. O creme que você tinha reservado! (Vou escrever um livro sobre a importância de se reservar na culinária brasileira)
gustavo diz: coloque de novo na batedeira. e, aos poucos, com a batederia ligada, vá entornando a calda de chocolate na mistura - a que estava no outro recipiente. vc vai ficar imediatamente desapontado. porque aquele creme que tinha crescido pacas, bem, vai murchar. não se preocupe. é isso mesmo. aí, novamente, sessão espancamento. bata, mas bata até doer.
Inagaki diz: Ah, eu gosto muito de bater. Mas com carinho, e só quando elas me pedem.
gustavo diz: tem que chamar de #)&!!$*%!!@. Melhor, chama de contínuo! (nelson rodrigues, lembra?) "Contínuo!!!" “eu sou contínuo, e o senhor é um filha da puta!” (os sete gatinhos, bem lembrado para uma receita sobre o pequeno gato)
gustavo diz: bom, depois de uns cinco, dez minutos batendo - depende da sua vontade, da sua preferência, tem gente que é mais sádica, se satisfaz só nessa parte, depois acende um cigarro e vai dormir - coloque, enquanto bate, as duas colheres de chá de farinha. é pouco, não se espante. Importante: não fique triste se não encontrar colheres de farinha no mercado. eu procurei, mas a tramontina só fabrica de aço mesmo. Nesse caso, jogue apenas o ingrediente que jaz placidamente sobre a colher, ou seja, a farinha – não jogue a colher junto, eles nunca explicam isso nas receitas. Mais uma dica, não é necessário sujar duas colheres diferentes. Aprendi um segredo com um chef romeno: basta usar uma vez uma colher, esvaziá-la no recipiente, e usá-la novamente! Incrível o que esse pessoal do leste europeu inventa.
gustavo diz: e, uma reparação importantissima: é MEIA xicara de açúcar. MEIA! se vc tem um medidor, use o medidor. bom, eu sempre botava um pouqinho mais que meia, mas a receita é meia.
Inagaki diz: Ok. Anotado. Meia de estudante.
gustavo diz: terminando de incluir a farinha na massaroca que vc criou - e não precisa bater muito a farinha, só o suficiente pra ela se misturar bem na massa - está pronto! mas, espere, ainda não acabou. vc tem forminhas para o petit gateau?
Inagaki diz: Pensei que vinha agora a parte do sorvete. Existe isso, fôrmas pra petit gateau? Catzo.
gustavo diz: sim. não pra petit gateau. aquela fôrma de louça branca, redonda, com risquinhos verticais em volta. acho que pra souffle. procure uma fôrma redonda. bom, comprei dois tamanhos dessa fôrma. um pequeno, de sete centímetros de boca. outro de nove centímetros de boca. embora pareça pouca diferença, o de nove é bem maior. e costuma ser o que eu utilizo pro meu petit gateau. anotado? sete, ou, preferencialmente, nove centímetros de boca. forminha de louça branca.
Inagaki diz: Anotado. Ou melhor, copyandpasteado para ser posteriormente impresso.
gustavo diz: antes de colocar a massaroca na fôrma, unte-a com manteiga sem sal. mas unte sem recato, unte como se fosse o anão costumeiramente usado em orgias - aquele besuntado de óleo.
Inagaki diz: Ôpa! Besuntar é comigo mesmo!
gustavo diz: deixe beeem untada de manteiga. por quê? porque o petit gateau precisa sair fácil, depois de assar. já perdi alguns, que grudaram e sairam quebrados, tortos. então se esbalde em untar. depois de untar, coloque a massa nas forminhas. essa receita dá pra quatro formas grandes - de 9 cm - e ainda sobra um pouco pra uma ou duas de 7cm. detalhe importante. não coloque, em hipótese alguma, a massa até a borda da fôrma. na verdade, encha a fôrma até a metade, ou dois terços. nunca, NUNCA, algo mais que isso. pq? pq a massa cresce! que nem um bolo! mesmo sem fermento. por que não explicam isso nas aulas de química?
Inagaki diz: Caraca. Quanto tempo vou levar pra fazer tudo isso?
gustavo diz: eu faço em uma hora sem pressa. já fiz em meia, correndo. tem que ter espírito esportivo, ina. e, bom, faz uma melecada da porra. chocolate, ovo, manteiga. já viu. agora vem o segundo segredo de brokeback mountain:
Inagaki diz: Já sei: o Jack morre no meio do filme. Assassinado.
gustavo diz: não, esse é o terceiro segredo de Fátima. O meu é: o tempo de assar. a receita diz para deixar as fôrmas por cerca de oito a doze minutos no forno, numa temperatura de 200 a 220 graus - ligue antes o forno, para esquentar. qual o problema? quatro minutos de diferença para um petit gateau é muito. pq? nós temos que tirar a forminha antes de o centro da massaroca assar. o centro da massaroca tem que ficar cru. essa é a calda interna do petit gateau, nada mais nada menos que a massa que não assou.
gustavo diz: e o que o cru tem a ver com as calças. bom, oito a doze minutos é uma janela muito grande, vc pode perder o momento de tirar o bichinho, e ele pode assar por completo, perdendo a "calda" interna. nada contra, não fica ruim, mas perde a graça do pequeno gato - tradução impecável.
Inagaki diz: Infante felino!
gustavo diz: logo, a partir de oito minutos, vc tem que ficar experto. olhe para o bichano a todo momento, de minuto em minuto. vai ter um momento em que a massa vai ter crescido perto da borda, e haverá uma depressão no meio. e, se vc prestar atenção, a massa vai parecer diferente tb. a parte que cresce lembrando mais um bolo mesmo, e a parte de dentro lembrando um mousse.
Inagaki diz: E é aí que o gato começa a miar?
gustavo diz: isso. nesse momento - entre oito e doze minutos, dependendo do tipo do forno, da temperatura, da forminha, do chocolate que vc usou, do alinhamento de júpiter e netuno, da umidade do ar e da quantidade de raios gama na atmosfera - vc tira o petit gateau do forno. cuidado. não sei se vc sabe, mas, infelizmente, a forminha estará quente. não pegue-a com a mão nua.
Inagaki diz: Anotado. Vou ver se acho na Tok & Stok uma luvinha do Garfield, que é pra manter esse clima felino.
gustavo diz: pois é, isso é um problema. pq? pois a parte interna está meio líquida, pode entornar. mas as luvinhas de proteção são lisas, e a fôrma é de louça, pode escorregar. já perdi pequenos gatos que entornaram dentro do forno, qdo eu tentei tirar.
Inagaki diz: Putz. Uma verdadeira chacina de gatos. Que desperdício, por Tutatis!
gustavo diz: pois é. o bichinho pronto, vc doido pra comê-lo, e ele resolve se suicidar no forno.
Inagaki diz: Optou por escolher a própria morte. Merece meu respeito.
gustavo diz: bom, tirando o bichano, pegue uma faca. passe a faca entre a massa e a borda da fôrma, para descolá-la-lha-la. coloque, antes, embaixo da fôrma, um prato. vai te ajudar. pq? pq depois de descolar a massa com a faca, vc põe um outro prato em cima da fôrma. para quê? para virar a forminha sem queimar os dedinhos! vc segura o prato de baixo, o de cima, como se fosse um sanduíche-íche, e vira. tcharan!! a forminha vai ficar com a boca virada para baixo. eu criei esse procedimento totalmente original. sou um gênio. um gênio. note bem, totalmente original. se alguém faz isso por aí, me imitou.
Inagaki diz: Rapaz, eu tô te falando que vc precisa publicar essa receita no blog. Você já está fazendo um live posting aqui no MSN!
gustavo diz: :-) virada a fôrma, segure-a com delicadeza e a levante. com cuidado. teoricamente, ela sairá, e o petit gateau restará lindo e belo no prato. o prato que vc colocar na boca da fôrma será o prato em que vc vai servir. use um belo prato. Eu uso minha louça tailandesa, do dia a dia. :-)
Inagaki diz: Agora entra a parte do sorvete?
gustavo diz: sim. sirva com sorvete. pode ser de baunilha ou nata. Sugestão, se vc encontrar, use de tapioca. fica muito bom. e, sim, para sua menininha se apaixonar: compre morangos. bons morangos, realmente saborosos.
Inagaki diz: Morangos? Morangos. Ok!
gustavo diz: e fatie-os-lhos. beeemm fininhos. delicadas fatias de morangos. Coloque-os no prato qual um leque. sirva. lá estará seu petit gateu, servido com sorvete de tapioca e morangos fatiados. por fim: sirva o bolinho quente, ou seja, leve logo à mesa.
Inagaki diz: DILIÇA!
gustavo diz: tenho uma receita de couli de laranja - ou de tangerina - que pode ser usada por cima de tudo, do sorvete, do bolo, fica foda. mas não te dou. :-) couli é o nome gay pra calda.
Inagaki diz: Pô, mas eu queria tanto o seu couli...Uma coisa bem brokebackiana.

(...)

ps. ina, esqueci de te dizer: antes de desenformar o pequeno gato, cubra as forminhas com filme e deixe-as descansar de meia hora a duas horas na geladeira. Depois disso, qdo for assar o gatinho, retire as fôrmas da geladeira uns quinze minutos antes – mais ou menos o tempo que vc deixar o forno pré-aquecendo. A massa pode ficar de três a quatro dias na geladeira sem estragar. Logo, se vc quiser, tenha a trabalheira toda uns dias antes do seu romântico jantar. Et bon ap!

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quinta-feira, fevereiro 02, 2006

todos os eus e mais alguns - parte VII

costumo ir à esquina – ok, não há esquinas em brasília, aceitem como licença poética – comprar pequenos produtos do dia a dia na padaria do alfredo. somos amigos, eu e alfredo, e já ganhei intimidade para confessar-lhe que prefiro o pão do supermercado ao dele. um dia mesmo cheguei a pensar em voz alta, ao lado dele, “por que será que aquele pão é tão bom?”. alfredo olhou para os lados, se inclinou no balcão e me chamou, com ares severíssimos. atendi prontamente. “sabes, já pensei nisso. e só há uma resposta sensata: cocaína. só pode ser, afinal, pão é pão, não se inventa, é tudo igual! veja bem: colocam lá um cadinho assim de cocaína na massa, os clientes se viciam e voltam sempre. cocaína, ó pá, tu escondes assim, na farinha, no fermento. e por que esse olhar, tu que tentes me contestar! como se não soubesses o que colocam aí nessa sua coca-cola! pois vês alguém comprando litros e litros de biotônico fontoura pra servir no aniversário, no almoço de domingo? xarope é xarope, tu sabes, mas só compram esse da coca-cola. assim, sem mais? está bém. ó pá, esse é irmão desse, como dizem, não me enganam”. é verdade, alfredo é português. e usa longos bigodes. e, juro, suspensórios. mas, não, isso não é uma piada. alfredo e sua lógica incontestável existem.
(a realidade é assim, às vezes joga baixo, empurra piadas gastas, batidas, diante da gente, mas, enfim, é o que há, e ela, a realidade, às vezes sorri sem graça e diz, “foi o que se pôde fazer”.)
comprei meus biscoitos e minha geléia no alfredo e fui ao supermercado. sim, em brasília, quase todas as quadras têm supermercados. ou hipermercados, não sei mais. adeus aos velhos mercados, aos bolichos, às vendinhas. hoje só se conjuga em superlativo. os gigamercados das quadras vendem de tudo, pães, dvds, pneus, flores. alfredo sobrevive graças a uma persistente e anacrônica mania que ainda temos de conviver, conversar com o dono, com os demais clientes, perguntar da vida e deixar o tempo passar mais fagueiro. mas, bem, os pães do megamercado são de fato muito bons.
peguei meus quatro pãezinhos franceses e me dirigi à fila do caixa único, aquele para pequenas compras. filas de super-giga-yota-mercados são curiosas. em bancos sempre há filas para clientes especiais, correntistas, essas coisas. supermercados democratizam a fila. não há clientes especiais. lá compartilham o mesmo espaço o alto executivo, o guardador de carros, o aposentado, o estudante, o senador, o louco, a jovem moderninha, o blogueiro. somos todos iguais.
a fila se arrastava. metade dela bufava impaciente, a outra metade – comigo incluído – aceitava o destino e passeava os olhos pelas prateleiras, e por vezes olhava outras filas, imaginando se acaso andariam mais rápido. de repente um grito, um shiii, um ei! uma moça estava furando nossa fila, pondo-se, sonsamente, à frente de todos, próxima a ser atendida.
"a fila é aqui”, repetiram vozes desencontradas. ela, nem te ligo. um menino por fim a cutucou, enviado por alguma mãe iracunda, e repetiu a frase. ela olhou, mostrou sua pequena barriga saliente e repetiu em alto e bom som, “estou grávida”.
o murmurinho cresceu até que alguém de bom senso replicou: mas vocês têm fila própria, para idosos e gestantes! os demais concordaram prontamente e olharam indóceis para a moça. ela apontou a outra fila, “olha, tá cheia de velhinhos, estão demorando muito. olha lá”.
era verdade, duas dúzias de velhinhos esperavam pacientemente a vez, e aqueles enfim atendidos deliciavam-se em contar os níqueis e bater um desapressado papinho com a caixa, sempre simpatissíssima.
dissenso na minha fila. alguns aceitaram o argumento da grávida, outros insistiam em voz baixa, é uma furona, furona. de súbito, um senhor sai de seu posto, ar de militar, põe-se de frente aos demais e pergunta com o queixo em riste, “como sabemos que ela está grávida? isso lá é barriga de grávida? essa menina está mentindo!”
mais alvoroço, a moça tenta retorquir, mas é de três meses, é de três meses, outros já ensaiavam um "mentirosa" com voz mais firme, até que a grávida se faz ouvir. “estou grávida sim senhor. ora! e se duvidam, que venha um médico aqui conferir.”
o general – sim, deveria ser de alta patente, e, mesmo que não fosse, a fila o havia promovido – indaga aos demais. “algum médico, algum médico?” nada. por um momento, ele espera, ansioso. nada. ele enfim dá o golpe final e pergunta em voz solene, “um veterinário, então?” constrangimento. a moça arregala os olhos. “veterinário? velho destrambelhado!”.
balbúrdia geral. juro que vi o general marchar para a moça e ela lhe meter um biscoito maria no meio do nariz. ele deu um tapa no biscoito e avançou nas compras dela; um moço alto e forte o agarrou por trás, compras voaram pelos ares. alguém gritou, chama o gerente, chama o gerente, e o general furibundo, agarrado por dois, fez coro, “isso chama o gerente que ele é quem manda, e ele pode ver que essa salafrária está mentindo”. pronto, em meio a biscoitos, cebolas, iogurtes e papéis higiênicos voando em todas direções, o gerente havia sido promovido a obstetra, e alguns engraçadinhos já gritavam, chama o gerente, manda ele fazer o pré-natal.
deixei meus pãezinhos numa prateleira e saí de fininho, pensando no alfredo, que certamente diria, “viu, é a cocaína”. e, afinal, o pão do alfredo não é tão ruim assim. e, de cocaína, já basta a da coca-cola, emendaria alfredo e sua lógica incontestável. é, faz sentido.

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sexta-feira, janeiro 20, 2006

todos os eus e mais alguns - parte VI

fotos por gustavo weber
- o senhor lembra de mim?
virei o rosto e examinei o garçom. baixo, aparentando mais idade que tinha. uns 20, 30, talvez. ele sorria, meio sem jeito. fiquei alguns segundos em silêncio. antes que pudesse esboçar uma palavra, emendou.
- sou o naldinho. da foto. lembra?
dez anos. há dez anos fotografei naldinho na praia de copacabana. fazia um ensaio sobre a praia, era meu último dia. passava das quatro da tarde. um sol inclemente nos afogava numa luz pesada e pastosa, e a maresia entranhava corpo, lente e espírito. já havia terminado o trabalho. perto do hotel meridien, um grupo de meninos de rua jazia esparramado na areia, junto ao mar. me aproximei, sentei perto deles, e, como para justificar minha pausa na caminhada, comecei a fuxicar minha mochila. não parecia turista, nem banhista. de tênis velho, calças jeans, camiseta branca surrada, barba por fazer e uma mochila militar a tira colo, estava tão fora de contexto que eles mal me notaram. menos naldinho. ele se levantou e zigue-zagueou até mim. estava drogado. seus olhos não focavam em mim, permaneciam vidrados. mesmo assim, tentou se agachar, bambeou e caiu sentado ao meu lado. perguntou o que tinha na mochila. equipamento fotográfico, sou fotógrafo, disse eu, pensando se devia me arrepender ou não de confessar que meu precioso material estava todo lá. ele abriu um imenso sorriso, jogou a cabeça pra trás e gargalhou. levantou-se rápido e tentou correr até seus amigos, tropeçando nas próprias pernas. virou-se pra mim e gritou, vem, vem tirar foto da gente. tirei minha cannon da mochila, levantei e rumei até eles.
- naldinho!
era um bar em botafogo, passava das duas da manhã. apenas minha mesa continuava cheia e exigia o trabalho dos garçons.
- naldinho!
levantei-me e o abracei, e ele, constrangido, se afastou um pouco e estendeu a mão. seu sorriso desbotara. não poderia mais sorrir como naquele dia, nunca mais. seu rosto agora era marcado por rugas, cicatrizes, dor, perdera dentes, perdera o brilho que se podia notar mesmo naquele dia, drogado de tanta cola de sapateiro. forçava um sorriso triste. seus olhos não mais vidravam no infinito. mas pesavam, pesavam muito, como se o peso do mundo estivesse em suas pálpebras.
- como... onde estão os outros?
tiago, joão e caio permaneciam esparramados no chão, anestesiados demais para qualquer reação. latas de cerveja e refrigerante em punho, mais meia dúzia ao redor. erguiam a cabeça num esforço sobrenatural e cheiravam sofregamente a cola que enchia as latas, antes de desabarem novamente, enterrando a cabeça na areia. naldinho, capaz de alguma iniciativa, tentava animá-los, fazia piruetas, se jogava no meio deles, atirava latas vazias e areia para o ar e ria-se.
- morreram.
sorriu um sorriso triste e sereno e foi fechar nossa conta no balcão.
depois das fotos, naldinho sentou-se ao meu lado e perguntou em que jornal sairiam.
- é pro globo?
- não. vou fazer uma exposição. elas vão virar quadros, bem grandes. assim, desse tamanho.
ele arregalou os olhos e tentou se concentrar nas minhas mãos, imaginando o tamanho da posteridade.
- tudo isso? vou ser famoso! vou ser famoso!
- não sei naldinho. não sei.
- é difícil isso?, apontou pra minha máquina.
- a gente aprende.
- sabe, quero ser fotografo. ter fotos no globo. muitas fotos. assim, desse tamanho! e riu-se com os braços estendidos, deitado de costas pra areia.
permanecemos lá por um tempo, eu mostrando a máquina a naldinho, explicando como funcionava, abertura, tempo de exposição, luz, ele tentava se concentrar, pronunciava com a língua travada as novas e complicadas palavras - obturador, microssegundos - e ria.
- e a fotografia, naldinho?
- reginaldo, chefe, agora é reginaldo. olhou para o chão, meio sem jeito.
- muito caro né. essa coisa é cara. sabe, não esqueci não, até pensei, mas essas máquinas. tão caras né. um dia eu compro. eu sei que compro. permaneceu olhando para o chão, enfim ergueu a cabeça, olhou para o cristo redentor e virou-se pra mim.
- olha lá. olha os braços dele. ainda vou fazer fotos daquele tamanho. olha. olha os braços dele. assim. sorriu e por um microssegundo me lembrou o naldinho que conheci.

- o reginaldo está aí? voltei no dia seguinte no bar de botafogo. debaixo do braço, minha velha cannon embrulhada pra presente.
- não veio.
- ...
- tiroteio. ele mora ali, no dona marta. teve tiroteio ontem, a policia tentou subir. uma dúzia morreu.
- pode entregar isso aqui pra ele?
o dono do bar me olhou desconfiado, olhou para o embrulho e cruzou os braços.
- olha meu filho. essa garotada vem e vai. semana passada mesmo sumiu um garçom. o reginaldo não veio hoje, já coloquei outro menino no lugar. sinto muito. virou-se, pegou um pano velho e fingiu limpar o balcão.
olhei para o embrulho, acendi um cigarro e saí. antes de entrar no carro olhei pro cristo. permanecia lá, sereno, de braços estendidos, medindo as fotos de naldinho.

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sexta-feira, janeiro 06, 2006

todos os eus e mais alguns - parte V

um belo dia, um colega me interrompeu no trabalho e perguntou por que razão eu era ateu. passei alguns longos segundos pensando se valia a pena enveredar por essa aventura perigosa de discutir religião com um crente. acabei não sendo muito prudente, e pensei, ok, vamos lá, pode ser divertido.
– pela própria palavra que você usou na pergunta: razão, meu caro, razão. não há muito bem uma razão pra isso, não? por isso inventaram uma outra palavra, fé. que por sinal, não é nada supimpa, senão não existiria a expressão boa-fé, certo? além do mais, não faz sentido vocês dizerem que deus nos criou a sua imagem e semelhança. preste atenção, acreditar nisso: semelhantes a deus! um dos sete pecados capitais não é a soberba? ora, acreditar em deus e que nós fomos feitos a sua imagem e semelhança seria então pecado de orgulho, simples assim. menos, menos; humildade, meu caro, humildade.
ele fez ouvidos moucos e insistiu. “mas por que você não acredita em deus?”
antes que ele iniciasse o monólogo sobre suas convicções, respondi.
- mas eu acredito. assim como acredito na bicicleta. o homem inventou a bicicleta, o espanador. nem por isso deixam existir, e de ter alguma utilidade, certo? bom, não vejo utilidade pro espanador, é verdade. mas, enfim, se é pra acreditar em algo, por que não acreditar em tudo logo? fadas, boitatá, elvis. e, bem, monoteísmo é meio cacetante, não? politeísmo é mais divertido, a gente pode contar mais estórias, são mais personagens, a criatividade corre solta.
ele me olhava, não sei se incrédulo ou se não entendia nada do que dizia. aproveitei e continuei o monólogo.
- bem, se bem que vocês católicos são politeístas, não? os santos são uma idéia genial. por isso são tão populares. cada um com uma característica, com uma mania, com dias, cores, hinos. o máximo. um olimpo sem sacanagem, o único demérito. e, afinal, esse negócio de santíssima trindade é meio um politeísmo escamoteado.
não agüentou e resolveu defender seu panteão.
- espere lá, a santíssima trindade representa uma só coisa: deus. veja bem,
seu veja bem me deixou curiosíssimo. resolvi prestar toda a atenção que um coroinha poderia dar.
- deus é o princípio de tudo. é tudo, e sabe tudo. sabe tanto que sabe que ele mesmo existe. só que esse ato de conhecer a si mesmo, esse autoconhecimento, é manifestado num outro eu para os homens. deus deu o nome disso de cristo, seu filho. e o amor que sente por ele é o espírito santo.
fiquei chocado. quer dizer que esse amor próprio é o espírito santo? céus. nunca tinha ouvido algo tão esquisofrênico e narcisista. chegaria a ser incestuoso, se o outro não fosse ele mesmo. deixei estar e perguntei algo menos chocante.
- pera lá. deus é o princípio. mas princípio é o que jaz, o fundamento, sub jectum. mas deus é verbo também, não é? não está escrito na bíblia que ele é verbo? ele é o sujeito e o verbo? humm. legal. isso sim é poesia concreta.
- deus é verbo sim. verbo é a ação. toda a ação vem de deus.
- deus é ação, ação é movimento. bom. isso é bom. como diz a música, o movimento é sexy. logo, deus é sexy. mas, veja bem – agora era a minha vez de tascar um veja bem – essa história de ser sujeito verbo e predicado, princípio meio e fim, insípido inodoro e incolor, larry curly e moe, todas essas trindades santíssimas já eram manjadas. o hinduísmo se baseia em três também: brahma, vishnu e shiva. criação, permanência e destruição. já estava tudo lá. se é pra acreditar em algo, vou pelo original, nada de cópia. e essa história de amor incondicional, olha, o budismo inventou isso também: amor, compaixão por tudo e por todos. e esse negócio maniqueísta, o bem vence o mal, espanta o temporal, o azul e o amarelo, tudo é muito belo, isso também é anterior ao cristianismo, vem do zoroastrismo. a única novidade de vocês é a culpa, que, venhamos e convenhamos, foi uma invençãozinha desgraçada, não? a gente não precisa de culpa: basta prudência, amor, fidelidade, honestidade, gratidão. e essas coisas já estavam por aí, funcionando muito bem sem culpa e sem deus. eu acho que...
não deixou eu terminar minhas especulações e foi embora. eu ri e voltei pro trabalho.

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sábado, dezembro 24, 2005

todos os eus e mais alguns - parte IV

vou ao barbeiro toda semana aqui ao lado. a barbearia é a instituição fundamental de todo homem. refúgio desse mundo metrossexual – o que quer que isso signifique. lá, os últimos exemplares de nossa raça se reúnem, se confraternizam, celebram as velhas virtudes e esquecem como é duro sobreviver num mundo em que fomos substituídos por um bom manobrista e um bom porteiro – que troca disjuntores melhor do que nós, conserta o chuveiro melhor do que nós, e ajuda a tirar as compras do carro. ah, sim, e os dois novos "coelhos" – os modernosos saca-rolhas e vibrador rabbits.
minhas idas à barbearia são sagradas, sempre para aparar a barba. sim a barba, talvez o único troféu que nos resta. aparar a barba na rua é uma declaração à sociedade, um alto lá, “perdemos tudo, todas as funções sociais, mas os pêlos do rosto ainda são nossos”. o cheiro de loção barata, as pilhas de playboy, os pôsteres de times e carros são uma bela recarga de testosterona. saio de lá cuspindo no chão, coçando o saco e louco pra dar caneladas em um jogo de futebol.
deixar que alguém faça sua barba requer total confiança. permanecer sentado, com a cabeça inclinada, os olhos vendados por uma toalha encardida, e um desconhecido com uma navalha na mão debruçado sobre você pode parecer suicidio. não é. é uma demonstração de fé. ele pode atravessar a lâmina em sua jugular. quebrar seu pescoço. pode fazer caretas e debochar de você, ou mesmo embeber a toalha em clorofórmio e, com você desmaiado, te seqüestrar ou vender seus órgãos. sacrilégio pensar isso; os barbeiros sabem de seu papel. são sacerdotes de um mundo em extinção, e cabe a nós, fiéis ao santo sudário da toalha encardida de lavanda e suor, confiar na precisão da navalha, mesmo de olhos fechados.
odacir, o dono da barbearia, me atende. paulista de santos, cabelos muito bem pintados com grecin, ouro nos dentes e nas correntes do pescoço, mocassim branco, mãos tão grandes que fazem sumir a tesoura. odacir nos lembra do que somos feitos – ou devíamos. quando fecha a loja, bebe cachaça com cerveja no só drink’s, o bar ao lado, enquanto assiste ao futebol. nossos trabalhos são abertos sempre com a mesma pauta: campeonato brasileiro, mulheres, música sertaneja, mulheres, campeonato paulista, mulheres.
estava esperando a minha vez, lendo uma playboy de 1998, enquanto odacir cortava o cabelo de um senhor grisalho, que discutia a importância do cigarro no carteado. pôquer, truco, não importa, o cigarro é tão necessário quanto o baralho, dizia. odacir resmungava comentários, atento ao cabelo do velho. estranhei-o. estava mais leve, mais solto. emagreceu? cortou o cabelo? cismei.
chega a minha vez, sento na poltrona, ele a ajeita e joga meu pescoço para trás. fitei-o e entendi. seu rosto brilhava. reluzia, como se o tivesse lustrado. aquilo me inquietou. não resisti e, enquanto ele vendava meus olhos, perguntei o que acontecera. estava doente? reação de algum remédio? “sabe o que é, companheiro. o abelardo, aqui do só drink’s, tem tevê a cabo. depois do jogo passou um programa, um tal de ‘contemporâneo’. deu umas dicas pra quem tem barba muito encravada. esse negócio de depilação do rosto. olha, minha barba é muito encravada, sabe. e não é que resolveu?”. demorei a entender. odacir, depilação, rosto. não. a barba não. nosso último troféu, odacir. estremeci. ele pegou a navalha, meus dedos do pé encolheram. não parava de pensar, por quê, por quê?, e pedia para que a morte fosse rápida e indolor, um corte na jugular e pronto. mesmo vendado, fechei os olhos e esperei pelo fim.
odacir terminou os trabalhos. minha barba, como sempre, perfeitamente aparada, o pescoço intacto. paguei, acendi um cigarro e saí.
nunca mais fui no odacir. mas passei a assistir 'contemporâneo' escondido em casa. vai saber.

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sábado, dezembro 10, 2005

todos os eus e mais alguns - parte III


10 anos sem 80

Pois em verdade eu já fui rapaz, já fui donzela,
fui arbusto, pássaro, ardente peixe do mar.

(Empédocles, IX:569)

o epigrama do empédocles é lindo, mas não tem nada a ver com o assunto do post - uma boa maneira de começar com um ar mais respeitável.
na verdade, ele me levou a lembrar desse blogo, veículo espúrio de todos meus eus. e foi quando dei por mim e percebi. há 10 anos morreu a 80g, minha primeira e única revista.

como mann explicou no primeiro editorial, éramos três garotos da faculdade de comunicação - depois quatro, com a entrada do juliano. a vida lá tinha suas coisas boas: a primavera, os bailezinhos, as borboletas, o sapato engraxado, os chocolates godiva, os aguapés do laguinho. um belo dia tudo mudou. o gato do villela caiu do sétimo andar e desssa vez não sobreviveu, eu cortei o lóbulo da orelha protegendo a gisele do seu cafetão na prado jr., e saint exupery deixou de ser engraçado para o mann. então descobrimos que nada do que o mundo dizia fazia sentido. e bem, foi uma boa desculpa para montar uma revista literária. é bem verdade que de revista não tinha nada, não era nada mais que um pernicioso instrumento para divulgarmos todo e qualquer tipo de texto, odes eróticas, contos pérfidos, poemas insalubérrimos, receitas de space cake e equações de cálculo infinitesimal. mas foi uma forma de fazer as desrazões do mundo passarem mais fagueiras. era 1994.

durou quatro números, o quarto aliás não foi distribuído, pois percebemos que a revista estava corrompida: fora editada em peige meiquer. terrível, terrível, afinal, até então era feita da melhor maneira possível, com os originais - algumas páginas feitas com papel mimeografado, outras com uma velha olivetti da mãe do villela, e mesmo algumas com uma velha impressora matricial - sendo colados numa mistura de cola branca e natunóbilis, que acabava entornando por cima de tudo, mas curiosamente grudava que era uma beleza. ateamos fogo nas duas caixas com todos os exemplares do último número e uma coleção do tailor caldwell do mann - que convencemos a se livrar - em um ritual waimiri atroari que o juliano sabia decor, a vodka natasha substituindo com admirável compostura a poção xamânica, e letras do lou reed e uivos do villela se mesclando com os estalos de língua e verborragias védicas do mann. as chamas subiam altas enquanto dançavamos ao redor da cremação, todos nus, até os soldados da praia do forte imbuí, em niterói - lugar escolhido para a cerimônia -, atirarem para o alto e voltarmos a nado para o rio de janeiro. acabamos pegando uma carona numa traineira que apontava para copacabana e lá desembarcamos, vestidos de nu, na frente do copacabana palace, e fomos tomar chá no terraço para curar a ressaca. não sei se foi exatamente assim, mas é assim que gosto de me lembrar. era 1995. foram bons tempos.

cada um dos quatro números foi dedicado a alguns de nossos heróis. o primeiro para a eterna lídia vance (que deus cure as suas cáries); para o pai de todos os porres, o gênio henry chinaski; e para o brilhante cafezeiro mad dog. outros foram homenageados, sallinger, fante, lirio mario da costa, não me lembro de todos. como era costume, dedico esse post a meus cúmplices oliver mann, gustavo villela e juliano borges. que krishna tenha piedade de nós e nossas patifarias.

a revista foi-se, assim como as últimas garrafas de tatu – carinhoso apelido, talvez pela sensação de estar embaixo da terra ao acordar –, de uma caixa que um de nós tinha comprado ao ganhar na raspadinha – gastamos o prêmio todo em putas, tatus e kinder ovo.

tempos depois, resolvi mudar de ares, deixar o rio e seus engarrafamentos centopéicos. um dia, peguei meu uninho mille, coloquei minha enciclopédia barsa, meu atari, as obras completas do machado de assis e a minha coleção do zéfiro dentro do porta malas, e cruzei o cerrado em direção a ávalon. Mas, bem, essa é outra estória.

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sexta-feira, dezembro 09, 2005

todos os eus e mais alguns - parte II

Dia desses estava conversando com um amigo sobre tragédias gregas. Tive meu primeiro contato com elas na faculdade e fiquei maravilhado. Surpreendentemente, ele desdenhou. Disse que achava tudo aquilo bobo. Simples assim, bobo. Emburrei. Citei logo Édipo Rei, blockbuster das tragédias, que chegou a ser encenada por Felipe Camargo e Vera Fisher nas nossas noites globais tempos atrás. Disse ele, tragédia com mãe já basta a minha. Eu repliquei, sério, tentando achar o tom certo pra convencê-lo: mas é uma das mais belas putarias que já foi escrita.
- Putaria por putaria, prefiro o Zéfiro. Amor incestuoso não combina com tragédia. Não é pano pra manga, entende?
- Claro que é, tá louco rapaz? É contradição entre amor materno e sexo.
- Sei não. Sentimento materno é sentimento de culpa. Sabe a síndrome de Helsinki?
- Estocolmo...
- Uma porra dessas geladas, a síndrome do seqüestrador e seqüestrado, em que o seqüestrado passa a defender o seqüestrador. A mãe perde nove meses de sua vida com náuseas, dores, deformações físicas, descontrole hormonal e fisiológico. E em troca ama aquilo que fez tudo isso a ela. Relação sadomasô das mais profundas. E relação sadomasô é um pulo prum coitozinho.
- Mas e o enredo. Pelo menos é um bom noir às avessas. Todos sabem o fim, só não sabem o que os personagens vão fazer pra chegar lá. E o jogo de charadas é a mãe de todas as novelas. E o crime principal, o clímax, vai ser cometido, ninguém pode fazer nada, só botar a culpa na Moira, a coitadinha.
- É... mesmo assim, nesse caso, prefiro o Eurípedes. O Sófocles é meio pernóstico, entende, fica fazendo um blablabla metafísico que me irrita.
E assim continuamos, por um bom tempo. Um tentando desqualificar o argumento do outro. Até que parei e pensei como a estória de Édipo e Jocasta era realmente mirabolante. E, por que não, poderia ter sido tudo bem diferente.
Encontravam-se quatro típicos cidadãos da sociedade atheniense numa das várias ante-salas da Acrópole-in destinadas ao divertimento sexual dos passantes. Tinham acabado de se conhecer numa festa à fantasia, todos devidamente mascarados. Com a ajuda do vinho, em pouco tempo o gelo estava quebrado. Faziam dois belos casais: um dominó e uma gata, um urso e uma colombina - é um mistério a fantasia da colombina; alguns dizem que foi conseguida por muambeiros fenícios.
Quando começam a se despir, o inesperado acontece: o dominó é Édipo, a colombina, Jocasta, Tirésias é a gata, e Laio, o urso. Pandemônio. Primeiro porque Laio, pouco depois de Édipo nascer, dissera a Jocasta que iria na esquina comprar cigarros e nunca mais dera notícias. Tirésias, o velho cego, era apaixonado por Laio e, não querendo ver o futuro corno sofrer, contara o Destino pouco nobre que lhe era reservado. Laio resolvera viver a vida, fugindo da casa amaldiçoada. Édipo e Jocasta, sabendo o que o Destino havia traçado para os dois, resolveram aceitá-lo e desde então formavam um belo casal. O que não se esperava era a volta de Laio depois de tanto tempo.
Jocasta é a primeira a se despir.
Laio -- Minha querida esposa! Por Afrodite, como estás bela!
Édipo -- Sinto estragar tua alegria, peludo atheniense, mas a colombina já tem dono – (Édipo tira sua máscara) - Que fazes aqui, mulher?
(Jocasta fica catatônica. Laio, porém, tira a máscara e se apresenta.)
Laio -- Filho meu, não sabes quem eu sou? Laio teu pai...
Édipo -- Tu tens coragem de se desmascarar, pilantra desalmado. Não bastasse ter fugido de casa há vinte anos, agora voltas como se o tempo não tivesse passado. Cão velho, Cérbero pulguento e desdentado. Descarado!
Laio -- Respeito, sou teu pai!
(Tirésias, que até então se deliciava com a discussão, enfim se pronuncia, tirando a máscara.)
Tirésias -- Acalmem os nervos, por Tonante. Tu, filho de Laio, estás muito alterado.
Édipo -- Silêncio, velho baitola. Falo com o patife que se diz meu pai e com essa pérfida, medéia prestes a me matar de desgosto. O que fazes aqui, ó górgona, sendo bolinada por este urso velho e babão! Tu não prestas...
Laio -- Olhas o modo que falas com tua mãe...
Édipo -- Não te intrometas, odiado pai, que eu te como de porrada.
Tirésias, saliente -- Falando em comer...
Laio -- A gata velha e cega tem razão. Viemos aqui para quê, afinal?
Édipo -- Tu que não tentes nada com minha mãe, irmão torto de Polifemo. E eu não traço esta caveira velha, mais feia que o próprio Caronte, nem que estivesse no inferno.
Tirésias, desanimando -- Como não?
Laio -- Como não? Por Eros, tu vais comer a gata velha, sim senhor!
Jocasta -- Olha bem, ele nem é tão velho assim, filho.
Tirésias, achegando-se -- É...
Édipo, furibundo -- Por Juno, é um complô! Até tu, Jocasta? Como podes? Aprendiz de Pandora! Estou desencantado! Vou embora deste pesadelo.
(Sai Édipo, em passos apressados e as mãos sobre o rosto.)
Laio -- Isso. Isca, isca! Aqui só tem lugar pra macho. Que fiz eu, ó Afrodite, para merecer um filho brocha!
(Quando Édipo sai, Laio imediatamente fecha e tranca a porta. Instantaneamente, Édipo vira-se.)
Édipo -- Espere lá. Minha mulher está aí dentro. Abra esta porta!
(Sem resposta.)
Édipo -- Por Hermes, abra esta porta (nada) - Por Hades, vou matá-lo, seu safado, ah, se vou! O Destino já traçou tua morte nas minhas mãos!
Laio, com delicadeza espartana -- O Destino pode traçar quem ele quiser, menos a tua mãe. Pois eu tenho a chave e ele não tem.
Édipo -- Kraken de aquário! Hidra sem cabeça! Minotauro mocho! Trapaçeiro! Covarde! Cuzão!
(Por mais pesados os xingamentos de Édipo, a porta permanece fechada. Desesperado, Édipo corre ao telephone mais próximo.)
Édipo -- Alô, polícia de Athenas, pelos deuses, acudam-me. Tem um sujeito comendo minha mãe!
Guardião -- Quem, ó desesperado cidadão?
Édipo -- Meu pai!

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sexta-feira, novembro 25, 2005

todos os eus e mais alguns - parte I

foi anteontem. à noite. passava de uma da manhã. estava saindo do festival de cinema, lembrei que não tinha tomado meu remédio para pressão. sim, tenho pressão alta. com trinta anos, mas essa é outra estória. entrei na única farmácia aberta a essa hora.

pedi meu remédio, zonzo de sono. o vendedor mal me atendeu, jogando o meu precioso remedinho por sobre o balcão. estava imerso numa profunda - e, ao que parecia, seríssima - discussão com outro cliente, os dois com ares severos, encarando uma folha de papel. dei de ombros, fui pagar o remédio. feito, voltei às atenções pros dois, ainda sérios diante do intrincado documento. curioso, não resisti e perguntei, de onde estava, o que acontecia. "a receita, moço, a gente não entende nada do que está aqui."

por dois segundos, pensei, ora, que mal há nisso, e, sim, isso mesmo: pedi pra ver a receita.
os dois correram mais que prestativos ao meu alcance. o balconista/farmacêutico me passou o papel, já se desculpando, nunca tinha visto caligrafia assim, não dava pra entender nada. como isso podia, que desdém com o paciente, pois.

eram dois remédios. a letra era realmente horrível, simplesmente impossível de se decifrar. mas, num momento de inspiração divina, entendi o primeiro garrancho. aquilo ali não era um ele, era um tê. aquele esse não era um esse, era a letra a. pois, no meio da noite, de madrugada, em uma farmácia esquecida do mundo, proferi a mágica palavra: "azitromicina". olhei pro rosto dos dois, com o ar mais profissional que pude encontrar. o dono da receita olhou para o vendedor, que rapidamente correu para as prateleiras procurar o remédio.

não se dera por satisfeito, meu colega de compras noturnas. virou-se pra mim ansioso e perguntou pelo outro nome. eu, já sentindo os seis anos de faculdade e mais dois de residência exalando pela pele, resolvi arriscar ainda mais e perguntei: mas, afinal, para que o remédio? para minha namorada, disse ele. é coisa de mulher, entende. baixou a voz, mas sem constrangimentos, continuou. uma infecçãozinha. na vagina.

céus, por que não uma dor de garganta. pressão alta. enxaqueca. não, tinha que ser uma vaginite. olhei de novo a receita médica, com a palavra vagina ecoando na cabeça. não poderia decepcioná-los agora. não agora. mas aquele rabisco não me parecia estranho. e então veio a segunda revelação. estufei o peito de declamei: "cetoconazol. oral".

o vendedor, que já vinha voltando com o primeiro remédio, deu meia volta para as prateleiras, em busca do segundo remédio, feliz, satisfeito pelo dever finalmente cumprido.

já ia saindo da farmácia, o rapaz veio e agradeceu. perguntou minha especialidade, e o endereço do consultório. "não clinico", respondi. mas agradeci o interesse mesmo assim.

no caminho do carro, pensei quanto um ginecologista deve ganhar. mais que jornalista, meu caro, mais. e um cirurgião?, e tentei calcular alguma quantia, afogando-me em zeros e mais zeros de cifras irreais. e, afinal, pensei, cirurgias também não devem ser assim tão difícil. quem sabe numa noite dessas. quem sabe.

a propósito: descobri o nome dos dois remédios pois, por um milagre dos céus, já havia tomado os dois. azitromicina é um antibiótico usado para infecções respiratórias - tinha tido bronquite umas semanas antes. e cetoconazol é um remédio usado pra queda de cabelo. não sei se a namorada do rapaz se curou dos problemas, mas caspa e tosse ela certamente não tem mais.

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