domingo, fevereiro 01, 2009

água


Um dia segui viagem
sem olhar sobre o meu ombro.

Não vi terras de passagem
Não vi glórias nem escombros.

Guardei no fundo da mala
um raminho de alecrim.

Apaguei a luz da sala
que ainda brilhava por mim.

Fechei a porta da rua
a chave joguei no mar.

Andei tanto nesta rua
que já não sei mais voltar.

(José Paulo Paes, Canção do Exílio)

Marcadores: ,

sexta-feira, dezembro 07, 2007

janela da alma - um

(fotodesenho by gustavo weber)

“o olho vê, a lembrança revê e a imaginação... a imaginação transvê , é a imaginação que transfigura o mundo”

(Manoel de Barros, em "Janela da Alma", de João Jardim)


(fotodesenho by gustavo weber)

Marcadores: , ,

quarta-feira, novembro 21, 2007

impressões impressionantes - dois anos, carlos e dylan

No dia 21 de novembro de 2005 escrevi aqui:

VontadeEsses dias me deu vontade de fazer um blog. Passou
Como podem ver, a vontade voltou, passou, voltou, passou mais que voltou, e, entre idas e vindas, esse espaço acabou completando dois anos. Aos trancos e barrancos, na UTI, com respiração artificial e um capelão que insiste em me dar a extrema unção. Já deve ter dado, mas, nhé para ele, permaneço aqui, agarrado ao meus moribundos bits e bytes.
Essa data de celebração me parece, por isso mesmo, por essa luta inconstante e um tanto esquizofrênica para sobreviver, uma vitória de gosto amargo. Queria dedicar mais tempo para cá, queria ser um verdadeiro discípulo de mestre ina e honrar seu nome. Mas, como ele mesmo já me disse, isso aqui é um anti-blog. Posts bissextos, sem um tema comum, e... longos... sempre muuuito longos. Em um blog que ousa se auto-intitular pequenas coisas. Enfim, ina tem razão, um anti-blog.
A propósito dessa vontade de lutar contra meu eu autodestrutivo – entre todos os eus e mais alguns, tinha que haver um autodestrutivo – e não enterrar esse espaço, lembrei de um lindo poema do Dylan Thomas, que traduzo aqui pra vocês. E de outro, do Carlos Drummond de Andrade, conhecido, que relata de forma simples e bela como vamos passando por fases da vida e mudando nossa forma de ver o mundo. E, que, para seguir na brincadeira, traduzi para o inglês – afinal, se do Dylan vem aqui em inglês e português, por que não o do Drummond também, certo? O poema do Drummond, por sinal, é um diálogo curioso com um discurso de Jaques, personagem de As you Like it, do Shakespeare, mas essa é outra estória. E, não, não traduzi esse trecho de As you like it. Ainda. Mas um dia cometo essa sandice e tento traduzir Shakespeare.

Para vocês, caríssimos, que resistiram a essa longa jornada e ainda freqüentam esse espaço, feliz aniversário para nós. Com Dylan e Carlos.
. . .

Poema de sete faces
Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
. . .

Poem of seven faces
When I was born, a crooked angel,
those who live in the shadow,
said: go, Carlos! be gauche in life.

The houses pry into the men
who chase after women.
The evening might have been colorful,
had there not been so much desire.

The streetcar hurries full of legs:
white black yellow legs.
Why so many legs?, God, my heart inquires.
And yet my eyes
question nothing.

The man behind the mustache
is serious, plain and strong.
Barely talks.
He has a few, rare friends
the man behind the glasses and the mustache.

My God, why hast thou forsaken me
if thou knew`st I was no God,
if thou knew`st I was weak

World, world, vast world,
if my name was Curled
That would be a rhyme, not a solution.
World, world, vast world,
Vaster is my heart.

I should not be telling you
but this moon
but this brandy
moves me like hell.

Tradução Gustavo Weber
. . .


Do not go gentle into that good night
Dylan Thomas

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
. . .
Não siga docemente boa noite adentro

Não siga docemente boa noite adentro,
Na velhice, queime e brade ao fim do dia;
Ire-se, ire-se com a luz que vem cedendo.

Sábio, embora dê por certo o passamento,
Pois seu verbo já não apresa o que alumia,
Não siga docemente boa noite adentro.

Justo, que no adeus final, chorou quão bento
Seu débil feito bailaria à relva da baía,
Ire-se, ire-se com a luz que vem cedendo.

Louco, que cantou e roubou o sol do firmamento,
E aprendeu, já tarde, sua valsa de agonia,
Não siga docemente boa noite adentro.

Grave, enfermo, que, com olhos de não vendo,
Viu olhos cegos alvorarem de alegria,
Ire-se, ire-se com a luz que vem cedendo.

E a você, meu pai, em soturno ascendimento,
Rogo bravas lágrimas, de bênção, de heresia,
Não siga docemente boa noite adentro,
Ire-se, ire-se com a luz que vem cedendo.

Tradução Gustavo Weber

Marcadores:

sábado, janeiro 20, 2007

epigramas a la bumper sticker - dezoito

Karluv Most, Praga, outubro de 2006, 12 graus. Foto por gustavo weber

"Essa vida de eremita é, às vezes, bem vazia.
Às vezes tem visita. Às vezes, apenas esfria."
(Paulo Leminski, La vie en Close)

Marcadores: , ,

segunda-feira, maio 22, 2006

aprendendo com o silêncio de Bashô

"Por vezes atento. É quando a tarde cala e a noite hesita. Vem do jardim um solo atípico. De silêncios. Sequer um silvo, um chio, grilos e moscas nem ao menos movem. Aguardam. Só o vento soa e multiplica aflito o silêncio da grama. Por vezes, quando a tarde cala e a noite hesita, a orquestra de ruídos, resoluta, cisma. E espera. Atento, por trás da pausa, o aviso. Decerto. É chuva que vem."
***
"O riso
da cigarra – riso ou rasgo
que gargalha raso –
o riso
da cigarra rompe
em silvo de cigarra
e agarra.
E agarra. Agarra. Agarra. Agarra.

até que
encerra
– o ruído riso –
com o rasgo do corpo mortalha."
***
Difícil arte, traduzir em palavras o que vemos. Há um tempo - quando escrevi esses poemas aí em cima -, pensava que estava chegando perto. Qual o quê. Escrever é cortar palavras. Matsuo Bashô sabia muito bem. Seus haikais conseguiam isso. Traduziam a potência do real sem floreios, sem se perder com tantas palavras. Se um dia tentar de novo, vou lembrar da lição bem humorada de Chuang Tse: “A rede de peixe existe por causa do peixe; uma vez que pegar o peixe, esqueça a rede. A armadilha para coelhos existe para pegar o coelho; uma vez que o pegá-lo, esqueça a armadilha. As palavras existem pelo sentido; uma vez que conseguir o sentido, esqueça a palavra. Onde posso encontrar um homem que esqueceu as palavras, para que possa trocar uma palavra com ele?”
Pra vocês, um haikai de Bashô.

shizukasa ya
iwa ni shimiiru
semi no koe

Silencitude –
entranha e arranha a rocha
– o silvo da cigarra

(tradução gustavo weber)

Marcadores:

quinta-feira, março 30, 2006

epigramas a la bumper sticker - treze & quatorze

o viajante

"Eu sempre que parti, fiquei nas gares
Olhando, triste, pra mim"

(mario quintana, apontamentos de história sobrenatural)

foto por gustavo weber

"essa estrada vai longe
mas se for
vai fazer muita falta"
(leminski, la vie en close)

Marcadores: ,

sexta-feira, dezembro 23, 2005

quarto - porque o exílio é dentro

relendo o texto sobre o filme do walter salles, percebi o quanto a noção de exílio lembra idéias de gaston bachelard no livro poética do espaço. ele mostra a necessidade da casa para nós, sem o qual viveríamos dispersos pelo mundo. a casa seria a morada do ser. para bachelard, esse espaço seria tão vital que, se fosse necessário, poderia ser reduzido a um canto, qualquer que seja - um quarto, um debaixo de cama.
o exílio dificulta a construção desse espaço - daí sua crueldade - por estarmos desterrados, longe do que nos acolhe, do que reconhecemos e do que nos reconhece. e, por isso mesmo, nos impele a fazer de qualquer canto um refúgio da alma. a solução última seria, talvez, um refúgio em si mesmo, isolando-se do fora. mas existiria esse fora? o quanto de nós permanece dentro, em nós? há de fato um dentro em contraposição ao fora? talvez não. afinal, não somos feitos de nossa circunstância - uma dobra do mundo, como diria deleuze? mas, se esse fora não nos compõe, não nos diz nada, o que nos resta, desterrados em nós mesmos?

I
Esquecer-me dentro
– como um quarto.
Fazer-me, alhures, aposento exílio
Para estancar os movimentos
E acomodar o quanto de mim exato,
sem arranjos ou mobílias.

Distinguindo
o que de resto ainda adere inequívoco e o que
adereço.

II
Reter-me por um segundo por um quarto
Dentro
(gaiola de Faraday
que espalhe silêncios
e espantalhe o mundo)
Para apropriar o verdadeiro o próprio o eu
E aposentar o que não me for indispensável.

III
Esquecer-me dentro em quarto exílio
– para buscar o que me resta
intrínseco –
E não me descobrir
senão
inutensílio.

Marcadores:

sexta-feira, dezembro 16, 2005

rio - porque amanhã é logo ali, waly

jards macalé e glauber rocha escreveram um dia uma pequena ode-samba-prece ao rio,

idolatrada mãe a quem recorro
toda vez ameaçado pranto
paraíso são sebastião
rei de janeiro

brincando com as palavras dos dois, a melodia dissimulando divertidamente meu exílio, lembro que, com as festas de fim de ano, pouso no rio em alguns dias, e posso voltar àquela algaravia de matas, malandros, bundas, engarrafamentos e tudo o que me faz falta no cerrado. mas desde 2003, essa algaravia perdeu um pouco da força, sem waly salomão. lunático navegador, baco e beca, ora político ora poeta, misturando palavra e perdigoto, waly traduzia como ninguém aquela cidade. pensando nele, e na praia que me espera, me veio algo assim:
essa é pro waly
Evoé domingo ardido. Basta um sol, um fio de areia e 40 graus a profanar-nos todos. Benditos desavergonhados que me entorpecem vestidos de nus com vestígios de trapos, benditos trapos. Benditos soluços de mar que me entortam com tropeços de passos soçobrados entre enchentes e vazantes, benditos passos. Imerso à multidão tonitroante, eu nem me ligo, eu queimo e ardo, eu tomo picolé. Evoé Dragão Chinês. Evoé Maria Tereza Weiss. Rogo pelo fruto e pelo ventre (benditos ventres) e agradeço ao Redentor pelo Dionisíaco. Evoé domingo ardido. Basta um sol e um fio de areia para seguir descalço. Do alvorecer do alvoroçar de Copa, ao sol frisante no fim do horizonte do Arpoador.

Marcadores:

quarta-feira, dezembro 14, 2005

epigramas a la bumper sticker - quatro

eu ontem tive a impressão que deus quis falar comigo
não lhe dei ouvidos
quem sou eu pra falar com deus?
ele que cuide dos seus assuntos
eu cuido dos meus

(Paulo Leminski, Distraídos Venceremos)

Marcadores: ,

domingo, dezembro 11, 2005

epigramas a la bumper sticker - três

infância (2)

Eu matei minha saudade mas depois
veio outra

(Cacaso, Mar de mineiro)

Marcadores: ,

sexta-feira, dezembro 09, 2005

passarando - porque hoje é sexta?

um dos poemas mais conhecidos do Quintana é o Poeminha do Contra, que diz assim:

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

um dia li esse poema e lembrei daquela cantiga de roda, que dizia, "sabiá lá na gaiola, fez um buraquinho, voou voou voou". pensei nos dois, e me veio algo assim:

Para Mario Quintana
Passarinho na gaiola fez um buraquinho, voou, voou. Vou eu também. Sozinho? (O que me atravanca é a gaiola ou a escuridão desse caminho?) Entre grades, gaviões e passarinhos, assovio um horizonte bem imaginário e vou. Passarando. Tendo a solidão de sempre meu cativo ninho.

Marcadores:

epigramas a la bumper sticker - dois

Homo homini canis familiaris

1 bigo
2 beagles

Marcadores: ,

quinta-feira, dezembro 08, 2005

impressões impressionantes - zera a reza

meu primeiro contato com poesia concreta foi com caetano veloso. caetano não era bem algo que se ouvia lá em casa - meus pais preferiam chico. meu pai, violonista apaixonado por baden e paulo nogueira, decretava sua sentança: esse rapaz é desafinado, e, além do mais, rebola demais. para mim era o bastante, afinal, menino, confiava firmemente nos juízos paternos. desafinado e gay não pode. ok.

um belo dia, meu pai me chega em casa com um LP - sim, foi há algum tempo - do caetano, com uma capa despretensiosa, simples, apenas ele abraçado ao violão. passou alguns dias ouvindo atentamente ao disco. um dia, me chamou, colocou o disco pra tocar, e avisou, escute com atenção. esse rapaz aprendeu a tocar violão. e repetia a frase a cada nova canção, pensativo. vez por outra, dizia, e aprendeu a cantar também. assim caetano entrou em nossa casa. (hoje, não por acaso, meu pai é um ardoroso fã de caetano)

no disco, uma música me incomodava. pulsar. não era música. era um poema de augusto de campos musicado por caetano. nunca tinha ouvido algo parecido. as palavras seguiam em um ritmo pulsante, acompanhadas apenas por um sino e um bumbo, este tocado sempre que a letra O surgia em alguma palavra, o que materializava perfeitamente a redondice da letra, assim como seu vazio. o pulso da música, na verdade, nada mais fazia que evidenciar um vazio que entranhava tudo, a letra O, o sentido do poema, o eco incessante do bumbo invisível. o equilíbrio entre palavra e vazio, entre bumbo e sino, entre a voz de caetano e a ausência de música, tudo me fascinou. naquele dia, aprendi o que era poesia concreta.

o resto é estória. comecei a ler poesia concreta, décio pignatari, augusto e haroldo de campos, noigandres. comecei a ouvir caetano, e pinçar uma ou outra coisa diferente, concretismos do rapaz, diria meu pai. batmacumba, guá, asa, tudo tudo tudo, relance, julia/moreno.

percebi que o concretismo, com o tempo, se dissolvera em suas letras. estava lá, mas nada tão explícito quanto antes. uma coisa aqui outra ali mais explícita, como "as coisas" do arnaldo antunes, musicada no tropicália dois. coincidência ou não, o concretismo também foi ficando para trás em minha vida, os livros se escondendo atrás de outros na bagunça das estantes. sempre presente, não mais explícito, uma música do arnaldo antunes aqui, outra da adriana calcanhoto ali. como caetano, surgiam dissolvidos também em pequenas coisas minhas escritas, isomorfismos aqui, um jogo não discursivo ali, pitadas de experiências que augusto de campos chamaria de verbi-voco-visualidade, o que quer que seja isso.

dia desses, ouvi pela primeira vez noites do norte, lançado em 2000, se não me engano. e a primeira canção fez despencar uma parede de concreto no meio do chão de minha sala. e tudo voltou, como um agora e sempre, sem sequer me fazer sentir saudades, de tão presente.
caetano voltava a sua clara e firme concretude. bastava a primeira estrofe da música para ele anunciar que suas duras raízes ainda restavam lá, impassíveis.

caetano joga com o sentido, o som e a palavra, esfrega o semantema em nossos ouvidos, brinca de quebra-cabeça com sílabas, e cria. ao longo de toda a estrofe, as palavras se repetem, partidas ao meio, sílabas em uma lúdica dança das cadeiras, sem que em nenhum momento a música se perca, sem que ele esqueça seu propósito, o sentido final da canção. a junção perfeita do que pound chamou de melopéia - óbvia não apenas por ser uma canção, mas pela própria sonoridade das palavras - fanopéia - com a criação de nítidas imagens, como a embarcação sendo levada pelo vento - e logopéia - ao forçar nossos ouvidos a prestar atenção a tão poucas palavras, restaurando a força inicial de cada uma delas, e, ao mesmo tempo, construindo claramente, palavra por palavra, tijolo sobre tijolo, a idéia da canção.

com uma idéia simples e direta, instaura o novo, e nos mostra como a poesia concreta ainda vive.

zera a reza - caetano veloso

Vela leva a seta tesa
Rema na maré
Rima mira a terça certa
E zera a reza

Zera a reza, meu amor
Canta o pagode do nosso viver
Que a gente pode entre dor e prazer
Pagar pra ver o que pode
E o que não pode ser
A pureza desse amor
Espalha espelhos pelo carnaval
E cada cara e corpo é desigual
Sabe o que é bom e o que é mau
Chão é céu
E é seu e meu
E eu sou quem não morre nunca

Vela leva a seta tesa
Rema na maré
Rima mira a terça certa
E zera a reza

Marcadores: ,

epigramas a la bumper sticker - um

auto-epitáfio n 2

para quem pediu sempre tão pouco
o nada é positivamente um exagero

(josé paulo paes, socráticas)

não poderia começar essa seqüência de tópicos com algo meu. aos poucos, meus epigramas vão gotejando por aqui, aos poucos

Marcadores: ,

sábado, novembro 26, 2005

precinha - porque hoje é sabado?

dia desses uma amiga se admirava com a boa maré que vinha vivendo. Aproveite as alvíssaras, dizia eu, aproveite. ela, temente aos céus, rezingava: não mereço tudo isso, não mereço. eu zanguei. não diga isso. e escrevi uma prece pra ela repetir ao pé da cama.

precinha

Nunca digo meu deus eu não mereço. Se acaso o onisciente escuta? Digo apenas, por tudo, e mais um pouco, eu agradeço. Pelos sabiás na janela pelas flores que eu roubo do canteiro pelo brigadeiro quente na panela por brincar na chuva em março e fevereiro pelas chuvas de papel picado em copa do mundo pelas manhãs com desenhos animados pelo friozinho na barriga ao tobogã pelo picolé de limão e pelo chicabon pelo tatuí e pelo tatubola pelas frutas azedinhas a pitanga e a acerola pelas frutas suculentas e babantes pelo cheiro de eucalipto e de amaciante pelo jeito lento do elefante pelo beijo estalado na orelha e no cangote pelo som fanhoso do fagote pelos animais engraçados, a girafa, o camelo e o tamanduá bandeira e, claro, pelo ornitorrinco e pelo mafagafo que mafagafeia nunca digo meu deus eu não mereço. Se acaso o onisciente escuta? Digo, por tudo, e mais um pouco, eu agradeço.

Marcadores:

Follow gugsweber on Twitter eXTReMe Tracker