segunda-feira, abril 26, 2010

Oscar 2011 - parte quatro


Melhor Filme: O Rei Gago vs Dude Wayne
Como o subtítulo já indica, dois filmes concorrerão palmo a palmo ao Oscar de melhor filme nos Academy Awards de 2011. Os outros oito filmes, ao meu ver, farão figuração. Não são filmes fracos os restantes, muito pelo contrário. Mas os dois nasceram com estrela. Quem vencerá, não sei dizer. Pode ser a consagração final dos Irmãos Cinema, os Coen. Pode ser a ascenção de uma nova estrela, Tom Hooper. Há, sempre, uma pedra no caminho. Nesse caso, uma árvore. The Tree of Life parece ser o único filme capaz de mudar meu prognóstico. Mas Malick já decepcionou antes - lembrem-se de The New World, seu último filme. Por isso mesmo, não está no título desse post. Em dez meses, veremos quem ganhou.

1 - The King's Speech. Dirigido por Tom Hooper, que faturou quatro Globos de Ouro com sua mini-série John Adams. Estrelado pelo recém-indicado Colin Firth, o oscarizado Geoffrey Rush, além de Michael Gambon, Guy Pearce e Helena Bonham Carter. Além de melhor filme, direção e as categorias de ator e atriz principais e ator coadjuvante, deve concorrer também a figurino, direção de arte e categorias semelhantes.

2 - True Grit. Se o anti-western No Country For Old Men ganhou quatro Oscars, incluindo melhor filme, o que acontece quando os Coen filmam um western clássico? Eu aposto em prêmios, muitos prêmios. O elenco é muito bom. Inclui, além do último premiado Jeff Bridges, o impávido e eternamente tosco Josh Brolin - a meu ver, em seu habitat natural, o western - e Matt Dammon. Fotografia nas mãos do oito vezes indicado Roger Deakins. Não sei se estou exagerando, mas acho muito difícil esse filme não receber ao menos meia dúzia de indicações.

3 - The Tree of Life. Terrence Malick é um mistério. Pode fazer um monumento visual como The Thin Red Line, pode fazer um filme esquecível como The New World. Agora, ao que parece, está evitando ao menos um dos erros cometidos no último filme: elenco. Em vez do fraco Colin Farrel, Malick escalou Sean Penn e Brad Pitt, juntando qualidade dramática e carisma. Como Malick escreveu o roteiro, também podemos esperar indicação nessa categoria, além da já esperada aula de fotografia e consequente indicação.

4 - The Conspirator. Robert Redford dirigiu apenas um filme memorável, Ordinary People, 30 anos atrás. Por que então aposto nesse projeto? Bom, Redford escolheu um belo elenco, liderado por James McAvoy (Last King of Scotland, Atonnement), além de Tom Wilkinson, Kevin Kline e a jovem e competente Evan Rachel Wood (seriado True Blood, The Wrestler, Across the Universe). A história também promete, pois trata de nada mais nada menos que o assassinato do presidente Abraham Lincoln, o que já garante antecipadamente a atenção e publico e mídia americanos, independente de sua qualidade.

5 - The Way Back. Primeiro filme dirigido por Peter Weir desde Master and Commander, de 2003, que foi indicado a dez Oscars e faturou dois. A Academia adora filmes épicos sobre guerra, especialmente II Guerra Mundial. O filme trata disso: a fuga de soldados de um gulag na Sibéria durante a II Guerra Mundial. Um assunto de interesse da Academia com um diretor que sabe fazer um filme de guerra. Além disso, o elenco é bom: Colin Farrell (a meu ver, o calcanhar de aquiles do filme), Ed Harris, Jim "Across the Universe" Sturgess e a menina Saoirse Ronan. Peter também escreveu o roteiro, ou seja, deve concorrer nessa categoria também. A fotografia ficou com Russel Boyd, que ganhou o Oscar da categoria por Master and Commander. O único ponto negativo é o fato de o filme tratar de russos (nem sempre isso faz sucesso nos EUA, vide Enemy at the Gates) e de a história ser um grande hoax. Isso mesmo. Há alguns anos, descobriram que o autor do livro que inspirou o filme nunca participou de fuga nenhuma, tendo inventado tudo. Mas, bom, ficção por ficção, isso é Hollywood, certo? Veremos.

6 - The Kids Are All Right. A comédia alternativa do ano. Ao menos é o que crítica, mídia e produtores e distribuidores (esses, principalmente) esperam. Senão vejamos. Fez imenso sucesso em Sundance esse ano. Como Little Miss Sunshine. Será lançado no meio do verão americano. Como Little Miss Sunshine. Trata de uma família esquisita. Como Little Miss Sunshine. Tem um elenco excelente: Annette Benning, Julianne Moore, Mark Ruffalo e a jovem Mia Wasikowska. Como Little Miss Sunshine! Só falta saber se o filme conseguirá resistir ao próprio hype e, claro, ao lançamento prematuro, seis meses antes da temporada de prêmios. Eu aposto em indicações também para roteiro, direção e atores - Ruffalo e Mia.

7 - Another Year. Nos últimos 15 anos, Mike Leigh dirigiu seis filmes. Quatro deles receberam indicações ao Oscar. A lição é: quando Mike Leigh lança um filme, a Academia prestará bastante atenção. Além disso, Leigh escreve o roteiro desse filme - indicação quase certa. E, para não correr riscos, Leigh escalou Imelda Stauton e o já oscarizado Jim Broadbent para os papéis principais. Que Another Year terá indicações, acho que ninguém em sã consciência duvida. Talvez não de melhor filme - mas eu aposto nela.

8 - Jane Eyre. O site IMDB afirma que o filme será lançado em 2011. Eu acho que poderemos ter uma surpresa e, na dúvida, ponho o filme aqui. O problema aqui é que a distribuidora, Focus Features, não tem nenhuma aposta segura para melhor filme em 2011, a não ser a comédia The Kids Are All Right, que, como eu disse, é uma comédia, ou seja, pode até ser indicado, mas ganhar são outros dobrões. Se Jane Eyre sair a tempo, é indicação garantida e chances reais de ganhar. Senão, vejamos: O filme é uma adaptação de um clássico da literatura inglesa. A principal produtora é a BBC, que raramente erra em suas adaptações. O elenco traz não só a promissora Mia Wasikowska, como Dame Judi Dench, Jamie "Billy Elliot" Bell e Sally "Happy Go Lucky" Hawkins. E é dirigido pelo super-hypado Cary Fukunaga, que ganhou Sundance e mais meia dúzia de prêmios em 2009 com o seu primeiro longa, o drama Sin Nombre. Se Jane Eyre sair em 2010, veremos ele no Oscar 2011.

9 - Toy Story 3. Isso mesmo. Mais uma vez, um desenho animado concorrendo a melhor filme. Estou arriscando demais? Talvez. Mas o filme tem credenciais para tanto. Seu diretor, Lee Unkrich, esteve a frente de Toy Story 2, Monsters Inc. e Finding Nemo. O roteirista, Michael Arndt, ganhou Oscar por Little Miss Sunshine em 2007. E... é o único, isso mesmo, único lançamento da Pixar em 2010 - a multivencedora produtora de desenhos está apostando simplesmente tudo nele. O filme certamente ganhará melhor animação e pode concorrer a roteiro e direção. Mas aposto também em indicação para melhor filme. Alguém se habilita a apostar contra?

10 - Inception e Never Let Me Go. Eu sei, estou trapaceando. Mas esse embate define bem o tipo de Oscar que teremos em 2011. Warner Bros. Pictures vs Fox Searchlight. Uma, acostumada a blockbusters, outra, conhecida por vender agressivamente filmes mais alternativos. Inception será lançado no verão americano, ponto contra. Mas é dirigido pelo excelente Christopher Nolan, em seu primeiro projeto desde Dark Night. E, bom, conta, em seu elenco, com Leonardo DiCaprio, Marion Cotillard, Michale Caine, Tom Berenger, Joseph Gordon Lewitt. Cada vez que olho esse elenco, tenho arrepios por não ter incluído nem unzinho deles em minha lista. Never Let Me Go, por sua vez, é o segundo filme do diretor Mark Romanek, que estreou com o esquecível One Hour Photo. Mas é a adaptação de um romance de Kazuo Ishiguro, que concorreu a inúmeros prêmios à época de seu lançamento e foi considerado melhor romance de 2005 pela Time. O elenco, em sua maioria feminino, também impõe respeito: Carey Mulligan, Sally Hawkins, Keira Knightley, Charlotte Rampling. Se o Oscar continuar a atual tendência em apostar em filmes mais autorais, teremos Never Let Me Go entre os indicados. Se ceder à pressão dos grandes estúdios, Inception ganha a vaga.

Gostaram da seleção? Discordam? Concordam?
Para vocês terem outra opinião, recomendo o blog de Chico Fireman. Chico fez uma ótima seleção para o Oscar 2011, ligeiramente diferente da minha. Dêem uma olhada.

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Oscar 2011 - parte três

Melhor Ator: O Rei e o Resto
Agora a situação começa a se complicar por aqui. Existem duas dúzias de filmes com bons atores sendo lançados esse ano, todos com chances de beliscar algum prêmio. Numa primeira tentativa, selecionei 30 nomes com potencial de concorrer a melhor ator principal ou coadjuvante em 2011. 30? Isso não é previsão. Separei daqui, cortei dali, enxuguei, abandonei nomes de peso e fiquei com a lista que segue abaixo. Para se ter uma idéia, cortei nomes como Leonardo DiCaprio, Ed Harris, Johnny Depp, James McAvoy, Sam "Avatar" Worthington, Jake Gyllenhaal, Russel Crowe, Javier Bardem e por aí vai.
De todos os nomes, o único que posso garantir presença na categoria melhor ator principal é Colin Firth. Formado nos palcos londrinos, Firth demorou para conseguir bons papéis em Hollywood. Agora, prestes a completar 50 anos, consegue estrelar três bons filmes seguidos: A Single Man, que lhe garantiu um indicação esse ano; Main Street, a ser lançado esse ano; The King's Speech, projeto talhado para ganhar inúmeros prêmios.
Além de Firth, o jogo está completamente aberto. A seleção que segue é muito mais incerta que a seleção feminina que fiz no post anterior (que, tenho certeza, vou acertar muita coisa). Posso errar todo o resto? Posso. Mas, quem sabe, meus poderes proféticos me ajudam. Vamos lá.

1 - Colin Firth. The King's Speech. Como eu disse, a única barbada da temporada. Colin fará o próprio Rei George VI, que contrata um especialista em oratória para superar sua fobia de falar em público. Uma megareconstituição de época, dirigida por Tom Hooper, que ganhou tudo e mais um pouco com a série para TV John Adams em 2008. E o filme será lançado no final de novembro, timing perfeito para entrar na corrida pelo Oscar.

2 - Geoffrey Rush. The King's Speech. Se uma produção quer ser levada a sério, escalam Geoffrey Rush no elenco. O australiano é sinônimo de boa atuação. Nessa reconstituição de época, Rush fará o especialista em oratória. Difícil não brilhar. Jogo minhas fichas em sua indicação para coadjuvante.

3 - Robert Duvall. Get Low. O nome mais falado no início do ano para concorrer ao Oscar 2011. Na verdade, o filme já estava pronto ano passado mas não foi lançado. O grande risco que Duvall corre é o do esquecimento. Seu filme será lançado em junho, no início do verão americano, a meses de distância da temporada de prêmios - filmes com chances de Oscar costumam ser lançados pelas distribuidoras no final do ano. Veremos se o velho Duvall tem fôlego.

4 - James Franco. 127 Hours; Howl. O segundo nome mais falado da temporada. James Franco é a estrela solitária desse filme, que conta a estória de um alpinista que sofre um acidente em uma escalada e recorre a medidas extremas para conseguir sobreviver. O primeiro projeto de Danny Boyle desde o multivencedor Slumdog Millionaire. Curiosamente, Slumdog ganhou tudo no Oscar em 2009, mas seus atores não foram indicados. Será que Boyle quer provar algo, dirigindo um filme de um homem só, seco, duro e sem a purpurina de Bollywood? Esse ano Franco também está em Howl, filme-cabeça em que interpreta o poeta beat Allan Ginsberg, além de três outros filmes que serão lançados no verão americano, como a comédia romântica Eat Pray Love, encabeçada por ninguém menos que Julia Roberts. Franco tem feito tudo certinho em sua carreira, alternando blockbusters e filmes mais independentes, em que pode mostrar suas habilidades de bom ator. Veremos se será recompensado em 2011.

5 - Josh Brolin. True Grit; Jonah Hex; You Will Meet a Tall Dark Stranger; Wall Street: Money Never Sleeps. Não gosto de Brolin, um ator limitado e inexpressivo. Mas parece que a Academia gosta de sua atuação, digamos, minimalista, e do jeito cowboy tosco de ser do ator. Curiosamente, dois dos quatro filmes que Brolin estrela esse ano são westerns, um deles simplesmente feito para a glória: True Grit, o novo filme dos irmãos Coen, regravação do western de 1969 que rendeu o único Oscar da carreira de John Wayne. Além disso, Brolin está no novo filme de Woody Allen (You Will Meet...) e no novo filme de Oliver Stone (Wall Street). Participando de projetos de três grandes diretores - trato os irmãos Coen como uma pessoa só -, acho difícil Brolin não descolar uma indicação, ao menos de coadjuvante.

6 - Jeff Bridges. True Grit. Pois é, Bridges fará exatamente o papel que deu o Oscar de ator principal a John Wayne. Bridges volta a ser dirigido pelos Coen, parceria que no passado deu origem ao sensacional The Big Lebowski. O Dude não poderia ter escolhido projeto melhor para amarrar seu cavalinho. Agora corre sérios riscos de disputar a estatueta com Colin Firth de novo, como em 2010. Só não sei se leva.

7 - Tom Wilkinson. The Conspirator; the Debt; the Ghost Writer. Wilkinson está em meia dúzia de filmes em 2010 - escolhi apenas três para citar aqui. O ator vem merecendo um oscarzinho desde The Full Monty. Wilkinson não tem papel de destaque em nenhum dos três filmes citados, o que facilita sua indicação para coadjuvante.

8 - Mark Rufallo. The Kids Are All Right; Margaret; Shutter Island; Sympathy For Delicious. Já passou da hora de a Academia reconhecer as qualidades de Ruffalo e promovê-lo ao primeiro escalão de Hollywood. O ator vem ganhando paulatinamente reconhecimento e valor entre seus pares, mas ainda não conseguiu uma indicação ao Oscar. Presente em quatro filmes esse ano, talvez agora consiga. Mas nem tudo são flores em sua corrida para uma indicação. Ele está excelente em Shutter Island, mas o filme foi lançado em fevereiro, longe, muito longe da temporada de prêmios, que só começa no final do ano. Symathy For Delicious é um projeto dirigido e estrelado por Ruffalo e que lhe rendeu prêmio de melhor ator em Sundance esse ano, mas certamente terá distribuição reduzida. Sobra a comédia romântica The Kids Are All Right, que tem grande potencial (falarei mais sobre ele em breve) mas com distribuição prevista para o verão americano - mais uma vez, o problema da distância - e Margaret, que ainda não tem data para ser lançado esse ano. Que os deuses do cinema ajudem Rufallo, porque o calendário de lançamentos certamente não vai.

9 - Sean Penn. The Tree of Life. Penn não gosta da Academia, mas a Academia adora ele. Já ganhou dois Oscars de melhor ator principal nos anos 2000. Se ganhar mais um na mesma categoria, quebrará o recorde da Academia. Por isso mesmo, acho que tem mais chances de ser indicado a coadjuvante. O filme é dirigido e escrito por Terrence Malick, ou seja, falerei dele mais tarde, na seleção dos melhores filmes do ano.

10 - Brad Pitt. The Tree of Life. Não, não me enganei. Pitt pode sim receber uma indicação, provavelmente por coadjuvante. Afinal, é um filme de Malick. Além disso, a Academia gosta dele e quer premiá-lo. Não sei se esse é o projeto certo para que isso aconteça, mas uma indicação pode acontecer.



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domingo, abril 25, 2010

Oscar 2011 - parte dois


Melhor Atriz: o Fator Streep-Dench-Winslet
Nos últimos doze anos, três atrizes têm surgido entre os nomes indicados para a categoria principal ou para coadjuvante com uma constância que impressiona. Meryl Streep foi indicada seis vezes; Judi Dench, seis vezes; Kate Winslet, cinco vezes. Desde 1998, apenas dois anos não tiveram a presença de nenhuma das três atrizes no Oscar, 2004 e 2008.
Existem outras boas atrizes com várias indicações no mesmo período, como Cate Blanchett (quatro vezes) ou Helen Mirren (três vezes). Mas a verdade é que nos acostumamos a ver as três atrizes sentadas no auditório do Kodak Theater concorrendo a algo.
Em 2011, porém, é provavel que nenhuma delas esteja lá.
Streep está descansando. Winslet está envolvida com duas pequenas comédias e uma série de TV. Apenas Judi Dench tem um projeto de peso em andamento: uma adaptação de Jane Eyre, romance de Charlote Brontë. Mas é difícil que o filme fique pronto em 2010. Mesmo assim, colocarei o nome da Dame entre as possíveis candidatas. Um clássico da literatura inglesa, reconstituição de época... seguro morreu de velho.

1 - Judi Dench. Jane Eyre. Como disse acima, o que Dench toca vira ouro. Se o filme for lançado a tempo, Dame Dench estará lá novamente, provavelmente entre as coadjuvantes.

2 - Helen Mirren. Brighton Rock; The Debt; Love Ranch; The Tempest. Dame Mirren é certamente uma das melhores atrizes em língua inglesa da atualidade e estará em cartaz em seis filmes ao longo de 2010. Isso mesmo. Escolhi apenas os quatro com mais chances. Por qual filme ela será indicado, não tenho a menor idéia. Mas, com um Oscar já ganho, duas Palmas de Ouro, três Globos de Ouro, não sei quantos BAFTAs, é virtualmente impossível ela não ser lembrada por pelo menos um dos filmes de 2010.

3 - Hilary Swank. Betty Anne Waters. A menina de ouro foi a nocaute ano passado, com o desastre aéreo Amelia. Mas pode se recuperar esse ano com um projeto bem ao gosto da Academia. O filme conta a história de uma mãe solteira que resolve estudar direito para servir como advogada de defesa de seu irmão, injustamente acusado de assassinato. Não parece puro ouro? O único senão é o diretor do filme, Tony Goldwyn, ator fraquíssimo e diretor medíocre. Caberá à Swank convencer a todos nós que não é ouro de tolo (sinceramente, de todas as indicações aqui, é a que eu tenho menos convicção).

4 - Imelda Stauton. Another Year. A atriz mais feia da Inglaterra já merecia um Oscar por Vera Drake, quando perdeu pra menina de ouro aí de cima. Agora volta com mais um dramalhão de ninguém menos que Mike Leigh, o diretor que faz todo mundo chorar. Leigh é um diretor de atores de mão cheia, e Stauton uma excelente atriz. Deve conseguir uma indicação.

5 - Helena Bonham Carter. The King`s Speech; Alice in Wonderland. Uma das melhores atrizes de sua geração, Helena se casou com Tim Burton e se especializou em personagens freaks. Uma pena. Dessa vez, pode ter chance com o papa-Oscar The King`s Speech (falo dele em breve), em que fará a rainha Elizabeth. Será que finalmente teremos a eterna noiva do Frankenstein subindo no palco do Kodak Theater? Quem sabe. Ao menos uma indicação por coadjuvante acho que ela ganha.

6 - Anne Hathaway. Love and other Drugs. Desde Brokeback Mountain, Hathaway vem experimentando papéis mais interessantes. Com isso, conseguiu uma indicação com Rachel Getting Married em 2009. Agora volta a fazer par romântico com Jake Gyllenhaal, numa comédia-dramático-romântica (pois é...) do excelente diretor Edward Zwick (Glory, Legends of the Fall, Blood Diamond). Detalhe, o personagem dela tem Parkinson, e, todo mundo sabe, a Academia adora esses toques dramáticos. Não deve ganhar, mas uma indicação é possível.
7 - Carrey Mulligan. Never Let Me Go. A nova queridinha de Hollywood será indicação certa no Oscar 2013 com o projeto de regravar My Fair Lady - sim ela fará Eliza. Mas, bom, ainda estamos falando de 2011. Para esse ano, Carrey só tem chances com o filme citado, uma adaptação de uma novela de Kasuo "Remains of the Day" Ishiguro - mais um ponto positivo (falarei do filme em breve). Com diversos papéis fortes femininos, existe ainda a possibilidade de o filme emplacar mais de uma atriz nas indicações.
8 - Keira Knightley. Never Let Me Go; London Boulevard; Last Night. Keira conseguiu bons papéis dramáticos em três filmes que saem esse ano. Ao que parece, estão apostando nela. Sei que ela não é nenhuma Brastemp, mas eu aposto nela também. Em London Boulevard, ela contracena com Colin Farrel; em Last Night, com Sam "Avatar" Worthington. Mas talvez ela seja lembrada mesmo por Never Let Me Go - dos três, o filme mais aguardado e que vêm gerando mais expectativas.
9 - Aronofsky girls de Black Swan. Darren Aronofsky já mostrou que sabe tirar sangue de seus atores até conseguir atuações primorosas, sejam homens ou mulheres. Foi assim com Ellen Burnstyn em Requiem for a Dream, foi assim com Mickey Rourke em The Wrestler - e os dois foram indicados a melhor ator/atriz principal. Em Black Swan, Aronofsky escalou três mulheres para papéis fortes: Mila Kunis, Natalie Portman e Winona Ryder. Natalie é, de longe, a melhor atriz, mas Darren também já mostrou que consegue resgatar ovelhas negras - e Wynona é uma. Já Kunis, bom, ela é uma gracinha e isso já basta, mas, quem sabe, Darren nos mostra que ela também sabe atuar.
10 - Mia Wasikowska. Jane Eyre; Restless; The Kids are All Right; Alice in Wonderland. Se Mila é apenas um rostinho bonito, Mia, por sua vez, já mostrou a que veio. Descoberta na surpreendente série In Treatment, Mia vai aparecer em dois e, possivelmente, quatro filmes em 2010. Continuo achando difícil Jane Eyre ficar pronto a tempo, tampouco Restless, o novo filme de Gus Van Sant. Mas Mia está nos dois. E com o papel principal. Impressiona a ousadia dos projetos em que essa menina de 20 anos vem se metendo: um clássico da literatura infantil dirigido pelo louco Burton; um clássico da literatura inglesa; dois filmes de diretores bem alternativos. Vale a pena prestar atenção nela. E, se Restless e Jane Eyre não ficarem prontos a tempo, já tenho o primeiro nome para o Oscar 2012.

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Oscar 2011 - parte um


Nove Meses

Quem já passou por aqui sabe a fixação que tenho pelos Academy Awards. Oscar é coisa séria lá em casa. Quem não sabe, pode dar uma lembrada em como foi o Oscar 2008 na pequena cobertura que eu fiz à época. Das oito categorias principais - melhor filme, diretor, roteiro adaptado, roteiro original, ator, atriz e coadjuvantes - acertei todas as minhas previsões.

Mas, bom, as previsões aconteceram alguns dias antes da festa. Comecei a me perguntar se teria a mesma destreza com certa antecedência. Antes dos candidatos do ano serem anunciados, quem sabe? E antes dos prêmios secundários, da chamada temporada de prêmios, que começa no final de dezembro, seria possível? Vocês sabem que o mapa da mina para saber quem tem chances no Oscar é ver quem faz bonito nos Guild Awards - Actors, Directors e Producers - e no Globo de Ouro.

E se eu fosse ainda mais radical? E se desse a minha lista de apostas antes mesmo de os filmes serem lançados? Antes mesmo de saber SE serão lançados? E se eu apresentasse minha lista nove meses antes de os indicados serem anunciados, como um verdadeiro futurólogo deve fazer? Como se dissesse para uma mulher desconhecida no meio da rua que em nove meses ela seria mãe? Teria eu alguma chance? O desafio me pareceu interessante.

Há dois meses, a Academia já anunciou a data da Cerimônia do próximo Oscar: Dia 27 de fevereiro de 2011. Os candidatos serão anunciados um mês antes: 25 de janeiro de 2011.

Nos próximos posts, jogarei os dados. Apresento a vocês minhas apostas para melhor filme e melhores ator e atriz. Calma, não serei tão acurado como em 2008. Dessa vez, farei uma seleção de dez filmes que, a meu ver, têm chances de estar entre os dez indicados em 25 de janeiro ou grandes chances de receber múltiplas indicações (embora não necessariamente melhor filme). Não esqueçam que desde 2010 os indicados para melhor filme aumentaram para dez. Farei também uma seleção de atores, mas, como os filmes sequer foram lançados, não sei o tamanho e a importância dos papéis, ou seja, não sei se serão indicados a melhor ator principal ou coadjuvante.

Mesmo que eu erre, a brincadeira será divertida e pode servir de agenda aos incautos que passarem por aqui em relação aos bons filmes que deverão aparecer em terras tupiniquins esse ano e no início de 2011.

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terça-feira, fevereiro 26, 2008

Oscar 2008 - enterro dos ossos


Pai Gustavo Prevê o Futuro
Das oito principais categorias da noite de domingo, dei antecipadamente o nome de cinco vencedores, como vocês podem ver no post abaixo. Além disso, nas outras três categorias, reduzi o número de potenciais ganhadores para dois – no caso de melhor atriz, que mencionei que ficaria entre Julie Christie e Marion Cotillard, e no caso de roteiro adaptado, em que disse que ficaria entre os Coen e Paul Thomas Anderson – ou três – no caso de atriz coadjuvante, em que citei Cate Blanchett, Tilda Swinton e Ruby Dee. Nos três casos, os vencedores estavam dentre os nomes citados.
Acho que vou armar uma tenda e começar a prever a sorte, desfazer amarração, mau-olhado, trazer a pessoa amada de volta em cinco dias úteis – não trabalho fim de semana. Pedidos e cartas poderão ser enviados para o endereço do site.
E, por via das dúvidas, vou jogar na mega-sena amanhã. De repente...

A cerimônia – rapidinhas

Daniel, Tilda, Marion e Javier
É sempre legal ver bons ou, como foi o caso, excelentes atores serem premiados no Oscar. Nem sempre isso ocorre. Nunca se esqueçam de Julia Roberts em 2001, por Erin Brockovich, de Cuba Gooding Jr. em 1997 por Jerry Maguire, ou da Cher em 1988, por Feitiço da Lua (ganhando simplesmente de Glen Close, por Atração Fatal, e Meryl Streep, por Ironweed).

Prestem atenção: Marion Cottilard vai bombar de novo nas telas em... 2009. Pois é, vai demorar um pouco. Ela estará no novo filme de Michael Mann, Public Enemies, ainda em pré-produção. Com Johnny Depp e Christian Bale.

Jon Stewart me perdoe, mas: Socorro!!! Tragam Billy Cristal de volta, urgente!!!! Que cerimônia mais chocha. Falta mais piada infame. Falta mais animação. Falta Billy.

Dentre as mulheres mais lindas da noite, duas grávidas: Cate Blanchett e Jessica Alba. Pelo jeito, é o único jeito de evitar uma epidemia de anorexia em Hoollywood: baby boom.

Se a festa não era a fantasia, por que Daniel Day-Lewis foi de pirata – com um paletó do século XVIII e uma argola de ouro pendurada em cada orelha – e Tilda Swinton de assombração?

Se George Clooney continuar a enrugar e encolher do jeito que está, em pouco tempo vai ficar a cara do Martin Landau. Repara só.

Jon Stewart volta dos bastidores morrendo de rir dizendo que os vencedores da categoria canção original, Glen Hansard e Markéta Irglová, estavam brincando com as estatuetas nos bastidores, fazendo elas se beijarem na boca. De repente Markéta diz, ei, mas os dois são homens. No que Glen responde, não tem problema, estamos em Hollywood. Meia hora depois, quando o Oscar de melhor ator é anunciado, Daniel Day Lewis, antes de subir no palco, dá uma bitoca em... George Clooney. Clooney? Pois é, Glen, Hollywood.

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domingo, fevereiro 24, 2008

Oscar 2008 - parte quatro

Apostas para hoje à noite
Melhor filme:
Não há muita dúvida. Juno é uma gracinha; Atonement é um drama de primeira; Micheal Clayton um thriller de advogados como há muito não se via. E There Will ber Blood, bom, como já disse, é o melhor filme de 2007. Uma seleção boa, como há muito não se via. Mas o homenzinho dourado, hoje, deverá ir para No Country for Old Men, dos Coen. Por quê? Oscar não é matemática, mas, vejamos. Os votantes da Academia são, em sua maioria, atores. Além deles, também votam diretores, produtores e roteiristas. Pois o filme dos irmãos Coen ganhou simplesmente os principais prêmios dos quatro sindicatos em questão: O Screen Actors Guild, o Directors Guild of America, o Producers Guild of America e o Writers Guild of America.
Acredito que uma surpresa, e a única possível nessa categoria, seria o Oscar de melhor filme ir para There will be Blood. Mas o mais provável é que os irmãos Coen saiam com o principal prêmio debaixo do braço.

Melhor Diretor:
Mais uma vez, os Irmaõs Coen, o monstro cinematográfico de duas cabeças, devem ganhar. Mas a Academia também gosta de pregar pequenas surpresas. Com o Oscar de melhor filme garantido para os Coen, não é de se surpreender que outros diretores aumentem as chances de ganhar. Nesse caso, mais uma vez, o anti-épico There Will be Blood, e seu diretor, Paul Thomas Anderson, são minhas apostas. Além disso, Reitman, diretor de Juno, é muito novo. Gilroy, Michael Clayton, é estreante, e Schnabel, de Le Scaphandre et le Papillon, muito alternativo.
Melhor Ator:
Esse é a única categoria, em toda a noite, em que não haverá nenhuma surpresa. Repito, aposto todos os meus dobrões que não haverá surpresa aqui. Hoje será a noite de Daniel Day-Lewis sair consagrado do Kodak Theater. Será seu segundo Oscar – ganhou seu primeiro por Meu Pé Esquerdo, em 1990. Até George Clooney, um dos candidatos, disse, em recente entrevista para a Time Magazine: “Sou a Hillary Clinton do Oscar. Eu até teria chance de vencer, se Obama não estivesse concorrendo”. Obama, nesse caso, é Daniel Day-Lewis.

Melhor Atriz:
A Academia gosta de render homenagens. Premiar um ator em fim de carreira. Foi assim com Michael Caine, Jessica Tandy, e por aí vai. Esse ano, podem fazer isso de novo, dessa vez com Julie Christie. Afinal, quem não gosta de Julie Christie? Nossa eterna Lara de Doutor Jivago, Julie teve uma carreira de sucesso, principalmente nos anos 60 e 70. Após anos fazendo pequenos papéis, Julie está excelente em um filme nem tanto, Away from Her.
Há uma pedra no caminho de Julie. Essa pedra é francesa. Marion Cotillard é responsável pela melhor performance feminina no ano de 2007. Sua personificação de Edith Piaf em La Mome é sobrenatural. Assustadora. Comovente. Se a premiação da Academia fosse justa, não haveria dúvidas, Cotillard ganharia. Mas não é. Torço por ela, mas temo que Marion perca a estatueta para o coração mole da Academia, que gosta de passar a mão na cabeça dos seus favoritos, como é o caso de Julie.

Melhor Ator Coadjuvante:
Poderíamos adaptar a frase de Clooney aqui. Se Barden não estivesse concorrendo, seria uma categoria equilibrada. Casey Afleck, por exemplo, leva seu filme nas costas, em uma atuação perfeita, conseguindo mesclar melancolia e tensão. Philip Seymour Hoffman é um dos melhores atores de sua geração, e será indicado ainda muitas vezes nos próximos anos. Tom Wilkinson é o ator com quem todo mundo gostaria de contracenar, e George Clooney viu isso. Está fantástico, em um filme mediano – por sinal, os coadjuvantes de Michael Clayton dão um show, Wilkinson e Tilda Swinton. Mas, não, esqueçam: os Oscar irá para o novo queridinho latino da Academia. Javier Barden. Será ele um Banderas que sabe atuar, perguntava-se a Academia. Barden mostrou pra todos que não só sabe: é excepcional.

Melhor Atriz Coadjuvante:
Uma das categorias mais disputada da noite. Todos querem que Cate Blanchett leve seu segundo Oscar. Mas Tilda Swinton está espetacular em Michael Clayton. E, correndo por fora, Ruby Dee tem aumentado suas chances, principalmente depois que faturou o Screen Actors Guild deste ano. Além disso, há sempre o fator idade: Ruby tem 84 anos. Será ela a Jessica Tandy da vez? Bom, hoje a noite torço por Cate.

Melhor Roteiro Original:
Mais um Oscar com pouca disputa. Diablo Cody, roteirista de Juno, leva fácil. Será interessante vê-la subir no palco. Por quê? Bom, procurem saber mais sobre essa menina, e vocês entenderão.

Melhor Roteiro Adaptado
Difícil categoria, disputada. Mais uma categoria em que haverá o embate direto entre os irmãos Coen e Paul Thomas Anderson. Tudo dependerá de quão Coen será a noite.

Façam agora vocês suas apostas. E boa diversão hoje à noite.

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sábado, fevereiro 23, 2008

Oscar 2008 - parte três

Os vencedores desde já

Antes que os envelopes sejam abertos e discursos chorosos comecem a ser desfiados. Antes que Jon Stewart faça as prováveis piadas sobre a greve dos roteiristas e as primárias americanas. Antes que o show comece, já podemos contabilizar alguns vencedores. Vejam:
Irmãos Coen

Essa entidade de duas cabeças e muitos filmes no currículo finalmente pode ser considerada, hoje, o grande nome do cinema mundial, junto com Almodovar. Joel e Ethan colecionam prêmios e filmes excelentes em uma carreira de quase vinte e cinco anos. Já ganharam Sundance - com seu primeiro filme, Blood Simple -, já ganharam Cannes, algumas vezes por sinal. Já ganharam Oscar de melhor roteiro original, por Fargo. Falta agora o grande prêmio, seja ele o de direção ou de filme - o que deverá acontecer amanhã. Aposto no de direção. De qualquer forma, é o segundo filme deles com uma imensidade de indicações, oito, ultrapassando o último grande sucesso deles, Fargo, que recebeu sete e levou duas - roteiro adaptado e atriz. Enfim, Joel e Ethan são, hoje, os novos irmãos Lumiere, os irmãos Cinema.

Paul Thomas Anderson
Já havia feito dois ótimos filmes, Boogie Nights e Magnólia, uma ótima comédia, Punch Drunk Love. Agora, com apenas 37 anos, mostrou para todos que já é gente grande. Que quer mais. There will be blood é o melhor filme do ano de 2007, sem dúvida. Não deve ganhar melhor direção porque os Coen devem levá-la pra casa. Mas provavelmente levará melhor filme - nesse caso, levar mesmo, porque participou da produção do filme. E ainda corre o sério risco de levar roteiro adaptado - também escreveu o roteiro do filme. O garoto é bom.

Tony Gilroy
Já era respeitado em Hollywood como roteirista. Escreveu a trilogia Bourne, o roteiro de the Devil's Advocate - bom filme com Pacino e Keanu Reeves. No primeiro filme que dirige, Michael Clayton, recebe indicação a melhor diretor. Michael Clayton está indicado em sete categorias. The Bourne Ultimatum, em que foi roteirista, outras três. Nada mal, participar de dois filmes que, juntos, somam dez indicações.

Cate Blanchett
Nos últimos quatro anos, um Oscar na prateleira e outras três indicações. Oscar de atriz coadjuvante em 2005, por the Aviator. Indicação em 2007, por Notes on a Scandal. E duas, sim, duas indicações esse ano: melhor atriz por Elizabeth, the Golden Age, e melhor atriz coadjuvante por I'm not there. Não deverá ganhar melhor atriz, mas tem chances reais de levar pra casa um segundo Oscar de atriz coadjuvante - se Tilda Swinton deixar. Cate já merece uma estrela na calçada da fama.

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sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Oscar 2008 - parte dois

Barrados no Baile, ou, Esqueceram de Mim

Antes de falar dos indicados, vale a pena falar dos que não foram convidados pra festa. Dos esquecidos. Dos injustiçados.
Todo ano é a mesma coisa, como todo prêmio, há opiniões divergentes, discussões, indignações sobre quem venceu, quem deveria ter vencido. Mas nem sempre se fala dos que nem chegaram nos play-offs, nas finais. Esses, coitados, são sumariamente esquecidos.
Alguns filmes e atores que conquistaram crítica e público (às vezes um ou outro) não foram lembrados para o Oscar. Vejamos.

Zodicac
Não esperava uma dezena de indicações, mas, céus, quando esse filme saiu nos EUA, os críticos chegaram a ser chatos por tão unânimes. Todos o aprovaram. Não seria surpresa nenhuma ver seu nome lembrado em roteiro adaptado ou ator coadjuvante (no caso, robert Downey Jr.). Pois é, nada disso. Direto para o esquecimento.

Goya's Ghosts
Milos Forman estava há anos fora de circulação. Volta com um bom filme, diria muito bom. A Academia gosta dele, gosta dos seus filmes. Mas dessa vez o ignoraram solenemente. Nada. Nem para diretor, nem para as categorias menores, figurino, fotografia, algo assim. Naaa. Direto para o oblívio.

Hairspray
Uma das melhores comédias do ano passado. Indicado a três Globos de Ouro. Zero no Oscar.

Os Simpsons
A Academia não gosta de filmes politicamente incorretos. Bart bêbado, policias gays, acho que foi demais. Preferiram indicar o bobinho Surf's Up (Tá dando onda) para melhor longa de animação.

Charlie Wilson's War
Outro filme muito bem cotado pela crítica. E... esquecido. Ok, quase esquecido. Phillip Seymour Hoffman foi indicado a ator coadjuvante. Mas Hoffman está num ponto de sua carreira que, se fizer uma ponta num filme dos irmãos Farrelly (Quanto mais idiota melhor, Quem quer ficar com Mary), é indicado ao Oscar e, bobear, ganha. O rapaz está impossível.

Meninas que não foram convidadas para o baile:
Meryl Streep, por Lambs for Lions. Meryl Streep deveria ser indicada por qualquer coisa, até anúncio de margarina. E olha que eu não gosto dela.
Keira Knightley, por Atonement. Sua atuação não é excelente, mas, ei, Julia Roberts já ganhou um Oscar e foi indicada outras duas vezes.
Helena Bonhan Carter, por Sweeney Todd. Já merece um Oscar há tempos. Está sempre bem, qualquer que seja o filme. Mas esqueceram dela. De novo.
Keri Russel , por Waitress. A eterna Felicity do seriado de mesmo nome conseguiu vencer a má vontade da crítica e ganhou o respeito de todos com esse filme. Menos da Academia.
Amy Adams , por Enchanted. Eu sei, eu sei. Filme da Disney. Comédia. Mas muita gente esperava que ela conseguisse ao menos uma indicação. Ou por Charlie Wilson's War, em que tem um papel menor. Não. Nenhum dos dois.

There will be blood
Não, não me enganei. O filme foi indicado em oito categorias. Sim, mas esqueceram uma. Trilha sonora, feita por Jonny Greenwood, do Radiohead. É maravilhosamente incômoda, desagradável. Consegue nos inserir perfeitamente no mundo distorcido e imoral de Daniel Plainview. Pelo jeito, a Acamedia não gostou.
Se lembrarem de mais esquecidos, comentem.

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Oscar 2008 - parte um



Muita gente não tem idéia do que sejam os Academy Awards. Já aquela cerimônia que tomou emprestado o nome do troféu, um homenzinho dourado e careca, todos conhecem: Oscar. Pois é, o apelido pegou.

Na minha casa, não se perde Oscar. Pode-se perder eleições, primárias americanas, apuração das escolas do grupo especial, Páscoa, Ramadã ou especial de fim de ano do Roberto Carlos. Com Oscar não se brinca. Nem se negocia.

Assisti à premiação pela primeira vez em 1986, quando Out of Africa (Entre Dois Amores) foi o grande vencedor (Filme, Diretor, Roteiro Adaptado, e mais uns outros quatro de lambuja). Curiosamente, ganhamos um Oscar naquela noite. Sim, William Hurt ganhou melhor ator com O Beijo da Mulher Aranha. E ninguém vai me convencer que esse filme não é brasileiro: Babenco é o argentino mais brasileiro do mundo do cinema, e o filme tem a Sonia Braga. Repito, Sonia Braga. Não preciso de mais nenhum argumento: ganhamos um Oscar em 1986.

Desde então, venho acompanhando a cerimônia religiosamente. Lembro de quando o dramático "and the winner is" foi substituído pelo politicamente correto "and the Oscar goes to". Foi em 1989. Ano em que o papa-Oscar foi Rain Man, não por acaso um filme bem politicamente correto.

Sou da geração Billy Cristal. Sinto saudades dele. Billy apresentou o Oscar de 1990 a 1993, sem largar o osso, e depois em 1997, 1998, 2000 e 2004. Pra quem não lembra, ou nunca assistiu, Billy começava sempre a cerimônia cantando uma música, um pout pourri de melodias e letras bem humoradas e às vezes escrachadamente engraçadas que remetiam aos candidatos a melhor filme do ano. Não esqueço o ano em que um dos candidatos era The Crying Game (Traídos pelo Desejo), e Billy, a cada trinta segundos, se referia ao filme segurando as partes - quem já viu o filme, entendeu a piada, quem não viu, veja, é excelente, um drama de primeira. Pra mim, mestre de cerimônias do Oscar é o Billy Cristal, assim como o papa é e sempre será o Jõao Paulo II.

Esse ano, octagésima cerimônia, uma seleção surpreendentemente boa. Nenhum filme genial, que ficará para a história do cinema, mas muita coisa boa. Segue abaixo as indicações para as principais categorias. No próximo post eu falo sobre cada um dos indicados.


MELHOR FILME:
Atonement
Juno
Michael Clayton
No Country for Old Men
There Will Be Blood

MELHOR DIREÇÃO:

Paul Thomas Anderson, por There Will Be Blood
Ethan Coen, Joel Coen, por No Country for Old Men
Tony Gilroy, por for Michael Clayton
Jason Reitman, por Juno
Julian Schnabel, por Le Scaphandre et le papillon

MELHOR ATRIZ:

Cate Blanchett, por Elizabeth: The Golden Age
Julie Christie, por Away from Her
Marion Cotillard, por Môme, La
Laura Linney, por The Savages
Ellen Page, por Juno

MELHOR ATOR:

George Clooney, por Michael Clayton
Daniel Day-Lewis, por There Will Be Blood
Johnny Depp, por Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street
Tommy Lee Jones, por In the Valley of Elah
Viggo Mortensen, por Eastern Promises

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE:

Cate Blanchett, por I'm Not There
Ruby Dee, por American Gangster
Saoirse Ronan, por Atonement
Amy Ryan, por Gone Baby Gone
Tilda Swinton, por Michael Clayton

MELHOR ATOR COADJUVANTE:

Casey Affleck, por The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford
Javier Bardem, por No Country for Old Men
Philip Seymour Hoffman, por Charlie Wilson's War
Hal Holbrook, por Into the Wild
Tom Wilkinson, por Michael Clayton

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL:

Juno: Diablo Cody
Lars and the Real Girl: Nancy Oliver
Michael Clayton: Tony Gilroy
Ratatouille: Brad Bird, Jan Pinkava, Jim Capobianco
The Savages: Tamara Jenkins

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO:

Atonement: Christopher Hampton
Away from Her: Sarah Polley
Le Scaphandre et le papillon: Ronald Harwood
No Country for Old Men: Joel Coen, Ethan Coen
There Will Be Blood: Paul Thomas Anderson

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sábado, maio 26, 2007

ainda cannes - quinto do quentin, seu jorge e seu tomello

Tarantino encarnando seu alterego mais famoso, o tenista Roger Federer

Aproveitando a semana Cannes, que termina amanhã, domingo, com o anúncio de quem leva a folhinha de ouro. Quentin Tarantino concorre esse ano com "Death Proof", aquele filme que ele cortou daqui, reduziu ali, transformou num média-metragem, juntou com outro filme curto, do Robert "El Mariachi Sin City" Rodriguez, e lançou nos EUA em versão combo com o nome "Grindhouse". Parece que o projeto dois em um foi um fracasso por lá, principalmente pela enxugada forçada que ele fez no próprio filme. Isso porque a versão completa, uma hora maior - e sem o filme do Rodriguez -, fez um baita sucesso em Cannes.
Gosto muito de Tarantino. Como o Eduardo Valente explica em sua resenha, a razão talvez seja a sinceridade. Tarantino não se inspira em filmes B dos anos setenta, romances policiais ultra-pulp e mangás sanguinolentos para ser cool ou fazer estilo. Ele realmente gosta dessa cultura junk food e percebe muito bem a presença dela em nosso dia a dia. E acaba traduzindo aquilo tudo para o cinema como nenhum outro.
Antes que o resultado da Palma de Ouro saia, com a provável derrota do quinto filme de Quentin, faço aqui uma rapidíssima homenagem a ele. Ano passado um curta fez sucesso pelos festivais brasileiros. Estrelado por Selton Mello e Seu Jorge, "Tarantino's Mind" poderia facilmente ter saído de "Coffee and Cigarettes" do Jim Jarmush. Ou ter sido dirigido pelo próprio Quentin. Os dois atores brasileiros estão impagáveis como caricaturas... deles mesmos. Vale a pena dar uma olhada. E salvar entre os favoritos.

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domingo, maio 20, 2007

impressões impressionantes - run, natalie, run

Como todos sabem, estamos em semana Cannes - bom, todos os cinólatras como eu (eu sei que cinólatra diz respeito a cachorro, mas, ei, me dêem um pouco de liberdade aqui). Ano passado, o festival apresentou um filme chamado "Paris, je t'aime", na verdade, uma coletânea de 18 curtas dirigidos por grandes nomes, como os irmãos Cohen, Gus Van Sant, Alfonso Cuarón, Olivier Assayas, nossa dupla dinâmica Walter Salles & Daniela Thomas, e por aí vai. Esse ano, repetiram a fórmula, e lançaram hoje pela manhã o filme "Chacun son cinemá", com 33 episódios, cada um dirigido por um cineasta. Mais uma vez, Waltinho tem um segmento dele, e parece que fez sucesso, mesmo em meio a colaboradores como Wim Wenders, Polanski e Ken Loach. Infelizmente, esse post não é sobre "Chacun son Cinemá". Não estou em Cannes e não gravei o filme com minha câmera escondida debaixo do casaco. Falo aqui de "Paris, je t'aime", de 2006.
O filme passou por alguns festivais no Brasil, mas nunca entrou em cartaz por aqui, vá entender. Apesar de desigual, alguns curtas merecem uma olhada. Como esse que passo pra vocês, "Faubourg Saint-Denis", assinado por Tom Tykwer, famoso por seu "Corra Lola". Nele, Tykwer mostra o rompimento de uma relação entre o francês Thomas e a americana Francine (Natalie Portman, sempre linda). Tykwer utiliza algo semelhante ao ritmo acelerado de Corra Lola para contar a estória dos dois, mas, não, não é mera reciclagem, o estilo acaba caindo como uma luva para um curta. A espiral de acontecimentos e repetições nos captura sem grandes esforços e consegue traduzir a estória de um casal de forma simples e sensível. Mais não digo, afinal, é um curta, ou seja, para curtir - ui. Para aqueles que já viram, não custa rever. Para os que não viram, um pouquinho de Tykwer e Natalie Portman não faz mal a ninguém. Bon App.

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terça-feira, abril 17, 2007

impressões impressionantes - a origem do mundo, por Allen


“Estou pensando em ir a Nova York agora em setembro.”
“Férias?”
“Sim, não conheço.”
A mesa parou e virou-se para mim, em apavorante sincronia. Após cinco longos segundos, atacaram.
“Como...” “Você tem que visitar a galeria, qual o nome dela, Marta...?” “Olha, não fique em hotel, tenho um albergue...” “O João não ta morando ainda lá...?” “Sabe Murray Hill, ali na altura do Empire State? Tem uma loja de chocolates...” “Não vá no East Village, tá um saco, no Soho, tem um clube de jazz ali na altura da...”
Fiquei atônito. Todos eram moradores virtuais de Manhattan. Todos conheciam os melhores lugares, que nunca coincidiam. Todos tinham dicas, todos tinham conhecidos, todos tinham opiniões sobre a ilha.
“Você vai amar” “Ela vai te engolir” “Não tente ver tudo” “Você vai odiar” “Não tente entender aquilo, não dá, não dá” “Olha, Manhattan tem suas regras, entenda elas, você a domina” “O caos, o caos!” “Ela vai te esmagar” “Nenhuma regra, lembre-se, nenhuma regra, não procure padrões” “Você não vai conseguir decifrá-la, prepare-se. Ela vai te devorar” “Manhattan é a síntese do mundo, de tudo o que há”.
Regras. Siga as regras. Não há regras. Imponha suas regras. Se submeta. Nada fazia sentido. Pedi para que cada um me mandasse um e-mail com suas respectivas dicas, por fim se acalmaram, felizes pelo dever cumprido, e mudaram o assunto. Pude respirar fundo. Quando fui embora, um amigo meu me pegou pelo braço. “Aquilo é o início e o fim de toda a humanidade”.
Cismei. O início e o fim de tudo e de todos. A gênese e o apocalipse. Fui pra casa pensando naquilo e, apesar de toda algaravia, o susto inicial passou e comecei a cuidar mais da idéia. O que seria Manhattan. O que encontraria. Ruminava essas idéias bobas enquanto olhava os livros e DVDs da estante, e acabei fixando os olhos num filme. O oráculo, a verdade, quem sabe. Pensei, mal não vai fazer, e sentei para assistir Manhattan, do Woody Allen. Não sei se mestre Allen me ajudou com as expectativas quanto à ilha, mas me rendeu algumas insistentes idéias quanto ao nosso papel nela – e nesse mundinho que apenas a reproduz de forma um pouco mais colorida. Woody fala menos da ilha e mais de nós mesmos, pequenos seres ensimesmados, ocupados em ordenar e controlar o que nos cerca, e, ao mesmo tempo, ansiosos em nos enquadrar. Para isso, Woody pinta, em preto e branco, sua a criação do mundo e dos homúnculos – nós mesmos – que insistem em habitá-lo e reclamar para si a autoria de tal criação.

...

A cosmogonia de Allen começa com uma foto estática de Manhattan. Aos poucos, o clarinete de Gershwin anuncia o nascimento do mundo. Enquanto, vagarosamente, a música ganha vida e preenche os espaços, as fotos começam a se multiplicar e ganhar movimento.
Tomando para si o papel de Criador, Allen põe-se, em off – Deus não tem rosto – a descrever sua criação. Brincando com o fardo que se impôs, declara que aquela ainda seria uma cidade que existiria em branco e preto e pulsaria ao som de George Gershwin. E é isso que vemos. E é isso que ele nos oferece. E o mundo nasce em preto e branco. Ao som de Rhapsody in Blue.
Manhattan é uma das obras primas de Woody. Rica e bela, como a cidade, musical, cheia de idas, vindas, confusões e velocidades. Para os que não conhecem, o filme conta a estória de Isaac Davis (Woody). Ele namora Tracy (Mariel Hemingway), uma menina de 17 anos – ele tem 42. Isaac acha que a diferença de idade entre os dois não dá muito futuro ao relacionamento. Seu amigo, Yale, é casado e tem um caso com Mary (Diane Keaton). Isaac a conhece e, embora não tenha gostado dela inicialmente, vai aos poucos se interessando por ela. Termina com Tracy e inicia uma relação com Mary. Após uma curtíssima lua de mel, Mary o deixa para voltar com Yale. Isaac se dá conta que amava Tracy e vai atrás dela, mas ela está de partida para Londres. Fim. Como podem ver, não é lá um final muito feliz para Allen.
O filme trata de dois assuntos relacionados. De um lado, queremos que o mundo funcione segundo nossas regras e nossa racionalidade. Queremos ordem, mas queremos mais que isso, queremos a nossa ordem. Mas esquecemos um detalhe. Os demais personagens dessa peça. E seu livre-arbítrio.
No filme, Isaac se incomoda quando o mundo não gira para o lado que quer. Discute, por exemplo, com a ex-mulher (Meryl Streep, insuportavelmente perfeita), que pretende lançar um livro contando as intimidades do casamento dos dois. Não aceita o fato de sua ex-mulher tê-lo deixado por outra – no caso, outra mesmo, outra mulher. No final do filme, acha um absurdo Mary trocá-lo por Yale, afinal, Isaac se acha melhor que o amigo e rival. E briga com Yale, diz que as ações do amigo não são lógicas: primeiro tem um caso com Mary, depois a larga e incentiva o namoro entre Isaac e Mary, e depois a quer de volta. Yale se defende, diz que eles são apenas seres humanos, nem sempre lógicos, e que Isaac pensa que é deus. “Bom, eu preciso de um modelo”, responde Isaac. Mas seu modelo não abarca a irracionalidade do mundo. Não somos onipotentes, não somos oniscientes. Allen sabe disso, e sabe que o segredo está em aceitar as coisas como elas são. Por isso o título. Por isso Manhattan. Como amar uma cidade tão imprevisível e caótica? E ainda assim, Woody a ama. Amar Manhattan é o segredo da humanidade de Woody. Saber que há coisas que não há como controlar. E, ainda assim, ou por isso mesmo, as amamos.
Ao mesmo tempo em que, a todo momento, brincamos de Deus todo poderoso, o jogo acaba atuando contra nós. Pois acabamos, mesmo contra a vontade, nos subjugando às mesmas regras. Sejam as que criamos, sejam as que reconhecemos serem as regras corretas ditadas pela sociedade. Procuramos seguir aquilo que se espera de nós. Seguimos a profissão dos pais, vemos os filmes e lemos os livros que vão enobrecer nossa alma, vestimos de acordo com a moda. Queremos controlar nosso mundo e, ao mesmo tempo, somos controlados por ele. Esse é o jogo perspicaz de Woody. A eterna luta entre submeter o mundo e querer ser submetido a ele. Sim, querer. Queremos ser aceitos.
Por que Isaac deixa Tracy? Porque tem medo. Medo de que o relacionamento não dure pela diferença de idade? Talvez, mas principalmente porque acha que está errado, não está de acordo com o que seus amigos, ou a sociedade, esperam dele. Ele precisa de uma mulher da sua idade. Bonita e culta – uma intelectual, de preferência, que ele possa levar a encontros sociais e exibir. E, por que não, neurótica e insegura, afinal, todos seus amigos – e ele inclusive – são assim. Tracy é nova demais, pura demais, crua demais. Não tem a cultura de Isaac, não é intelectual, não é insegura – sabe muito bem o que quer. Mary/Keaton, por sua vez, adora desfiar seu intelectualismo, criticar mestres sagrados, fazer comentários sagazes e cheios de referências. É instável emocionalmente, pula de relacionamento em relacionamento, não consegue se comprometer. Mary é a novaiorquina ideal para Woody/Isaac. Ao menos é o que ele acha ser o certo.


Isaac ama Tracy. Nos momentos em que estão sozinhos, em casa, assistindo televisão, ou na rua, andando de carruagem pelo Central Park, Isaac se desarma de todos os preconceitos e pós-conceitos e abraça seu afeto. Mariel Hemingway representa o único personagem humano, e ciente de sua humanidade, no filme. A única pessoa que chora no filme. Nos emocionamos e nos envolvemos com Tracy, não apenas pela beleza de Mariel, mas porque ela é, apesar dessa beleza, de carne e osso. Ela sente, sofre, ama. Tracy é a síntese da humanidade em Manhattan. A própria representação daquilo que Allen tanto ama naquela ilha. Seus amigos podem ser a caricatura dos comportamentos, manias e atitudes dos novaiorquinos dos filmes de Allen. Mas não são reais. Tracy é real.
Isaac precisa ver seu mundo perfeito desmoronar para entender que não é Deus, apesar de dizer ser Ele seu modelo. O livro de sua ex sai, Mary o deixa, Tracy vai para Londres. Ao mesmo tempo, precisa passar por tudo isso para ver que os padrões sociais, suas regras prediletas e preferidas, nem sempre estão de acordo com o que queremos, desejamos e amamos. Quando Yale diz que está tendo um caso, Isaac desaprova. “As pessoas deveriam se unir para sempre, como pombos ou... católicos”. Essa é a verdade para ele. Yale é feliz seguindo outra verdade. Isaac se recusa a aceitar isso.
No final do filme, deitado em seu sofá, depressivo, arrasado pela série de infortúnios, Isaac resolve responder à pergunta por que a vida vale à pena? “Groucho Marx, Willie May, o segundo movimento da sinfonia de Júpiter, filmes suecos, educação sentimental de Flaubert, Marlon Brando, Frank Sinatra, aquelas incríveis maçãs e pêras de Cézanne, os siris de Sam Wo’s... o rosto de Tracy...” Isaac se levanta, tenta ligar para ela, ninguém atende, revolve atravessar meia Manhattan correndo até chegar ao prédio dela. Tracy está saindo para o aeroporto. Vai para Londres. Ao vê-la, através da porta de vidro, penteando o cabelo no hall do edifício, ele sabe que a ama. Mas ainda não sabe que não é Deus.
Ele pede que ela fique. Ele reprova sua viagem. Afinal, aquilo não estava em seus planos. Ela diz que voltará em seis meses. Ele diz que ela poderá voltar outra pessoa, que tudo pode acontecer em seis meses. Nem todos se corrompem, diz ela. “Você precisa acreditar mais nas pessoas.” Allen/Isaac se agita, pára, fica pensativo, olha para os lados, por fim... sorri. Finalmente, entendeu. Nem tudo está sob nosso controle. Tracy é Manhattan, viva. Humana. E ainda assim, e por isso mesmo, ele a ama.
Se Manhattan me ensinar algumas das lições que a Manhattan de Allen me ensinou, já será mais do que o suficiente. Não somos deuses, tampouco fantoches. Quem sabe encontro lá um pouco disso, uma faísca da gênese de toda humanidade. E sua revelação.

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segunda-feira, abril 24, 2006

impressões impressionantes - do lado de lá, dois verões


asiáticos
conversava com um amigo sobre cinema asiático e ele reclamava da tendência daqueles filmes em privilegiar estórias de amores mal resolvidos e exaltar paixões platônicas. para ele, todo cinema asiático costuma cair na vala comum dos amores intangíveis, dos sentimentos contidos por séculos e séculos de cultura repressora. claro, retruquei. primeiro porque não é exclusividade deles. nosso cinema adora contar esse tipo de estória. não por acaso classificamos esse amor com o nome do fundador da filosofia ocidental. mas fui além. hoje, mais do que nunca, é possível ver diversos filmes asiáticos esmiuçarem dramas e paixões para além da repressão e da sublimação tão criticada por ele.
o ano de 2000, por exemplo, foi pródigo em bons filmes do lado de lá. zhang yimou lançou "happy times". takeshi kitano explorou o gênero policial/máfia com "brother". edward yang ganhou o prêmio de melhor diretor em cannes com yi yi; e eureka, de shinji aoyama, ganhou o prêmio do júri. "o tigre e o dragão", de ang lee, arrastou multidões aos cinemas de todo o mundo. e por aí vai.
todos eles falam de dramas e paixões, afinal, é a pedra fundamental de qualquer arte. ok, admito que os mafiosos de takeshi ou os monges voadores de ang lee não são lá muito profundos. mesmo assim, alguns filmes exploram a alma humana com mais cuidado, como yi yi ou eureka. mas não vou falar deles agora. dois outros filmes de 2000 me interessam aqui. um de hong kong, outro de hanói. filmes irmãos, complementares, ainda que muito diferentes. complementares, pois mostram como podemos oscilar entre sentimentos e atitudes tão contrastantes, e, infelizmente, sempre presentes. na verdade, comecei a pensar neles por uma série de coincidências que fui desvelando aos poucos. são “amor à flor da pele”, de won kar wai, e “as luzes de um verão”, de tran anh hung.
***
coincidências
descobri que os dois estiveram em cannes, em 2000. os dois diretores haviam sido lançados na década de 90 pelo festival – kar wai em 1997 por “felizes juntos”, anh hung em 1993 com “o cheiro de papaia verde”. mas as coincidências não param por aí. o diretor de fotografia dos dois filmes é o mesmo: (mark) ping bin lee. a fotografia é o grande trunfo em ambos, e lee consegue pintar quadros fundamentalmente diferentes. o filme de kar wai despeja angústia e solidão na tela; o filme de anh hung, serenidade.
vamos adiante. seus nomes. o filme vietnamita faz referência direta ao verão em seu nome, tendo inclusive sido lançado em alguns países com o título “summer in hanoi”. curiosamente, o filme de kar wai, antes de ser lançado, foi anunciado em hong kong com o título provisório “beijing summer” – apesar de o filme se passar em hong kong! a referência ao verão é mais que apropriada. os dois filmes são lentos, cadenciados, e traduzem bem a morosidade dos dias e noites de verão. num deles, uma lentidão opressora; no outro, serena.
por fim, uma pequenina coincidência. os dois filmes têm em suas trilhas sonoras músicas que trazem um assunto em comum: olhos. “as luzes de um verão” inicia com “pale blue eyes”, de lou reed – em uma das melhores cenas que já vi de um casal despertando. “amor à flor da pele” utiliza o bolero “aquellos ojos verdes”.
***
a prisão de kar wai
um bolero bem cantado pode nos afogar em melancolia. é o que faz a trilha sonora de kar wai, repleta de boleros e refletindo o tema principal do filme: o amor não realizado entre os dois protagonistas. chow, jornalista, e li-chun, secretária, são vizinhos de porta e descobrem que seus respectivos cônjuges estão tendo um caso. mas o destino brinca com suas vidas, e os dois traídos acabam se apaixonando. o filme mostra a dor e o sofrimento da paixão reprimida entre eles. não há como não comparar os dois casais do filme, os traídos e os traidores – detalhe curioso, kar wai em momento algum mostra o rosto dos cônjuges traidores. de um lado, o amor sufocado dos dois protagonistas, de outro, o relacionamento ocasional, talvez passageiro, mas sem dúvida mais honesto e livre de seus parceiros.
a pergunta que fica, claro, é por quê. medo, insegurança, orgulho por terem antes condenado a traição dos cônjuges, ou apenas submissão às convenções sociais, ou talvez tudo isso junto. a resposta mais simples parece ser a mais certa. medo. falta-lhes coragem para abraçar sua paixão. o filme explora o drama desse amor reprimido e a ausência de solução para os personagens a não ser a fuga, a solidão e o sofrimento. mas não é apenas a coragem que lhes falta. falta sinceridade, ao negarem o que sentem um pelo outro. no final do filme, chow, incapaz de libertar-se de sua angústia, recorre a uma velha tradição para poder extravasar o que sente, e sussurra em um pequeno buraco no muro de um templo budista todo seu amor por li-chun. seu amor é tão inadmissível que nem mesmo ele pode ouvir suas próprias palavras.
lembro das críticas do meu amigo. esse filme trata essencialmente do tipo de drama que ele condena. mas kar wai vai além e nos dá um contraponto, o casal de traidores. embora invisíveis, são presentes ao longo de todo o filme e citados exaustivamente por chow e li-chun. é possível perceber certa inveja destes pelo desprendimento dos traidores, afinal, não se contentaram com vontades reprimidas e fantasias: realizaram seus desejos. kar wai deixa claro sua posição, ao mostrar o quão doloroso e terrível é a escolha dos personagens principais. o filme não os martiriza nem os glorifica, pelo contrário. não há nobreza de espírito que justifique a angústia eterna de chow e li-chun. ao contar uma fábula moderna sobre amor não realizado, kar wai nos mostra como é fácil nos condenarmos a uma prisão invisível. quando nos falta coragem, sinceridade, e, talvez, simplicidade para aceitar nossos dramas.
***
a solução de anh hung
simplicidade talvez seja o tema principal de “as luzes de um verão”. simplicidade ao acordar – e anh hung nos dá lindas amostras de como devemos fazê-lo. simplicidade ao comer, ao cozinhar. ao enfrentar os percalços do dia a dia.
o filme de anh hung acompanha a rotina de três irmãs ao longo de um mês. assim como no filme de kar wai, o tempo é arrastado. mas nesse caso, os protagonistas não se sentem sufocados pela lentidão das horas. em “as luzes”, não se luta contra o tempo nem se sofre com ele. há uma serenidade honesta em se aceitar o ritmo da vida, seja qual for. também como no filme de kar wai, as cores predominam. mas, em lugar do vermelho e do laranja fechados, das sombras noturnas e das luzes artificiais que compõem a atmosfera angustiada de “amor da flor da pele”, anh hung opta pelo verde e pelo azul, em todos seus matizes, e pela luz natural, ora macia, ora aguda, sempre benevolente. os tempos, os matizes e as luzes de anh hung envolvem as três estórias em serenidade. em “as luzes”, há felicidade pelo simples fato de se estar vivo.
não que sejam só flores. o diretor preenche as estórias das três irmãs com inúmeros dramas, sérios, leves, cruéis ou fortuitos. traição, bigamia, gravidez indesejada, amores não correspondidos. mas, diferente dos dramas de hong kong, os de hanói são vividos por completo. não são postergados, negados ou fantasiados. para anh hung, devemos buscar simplicidade em vivê-los. não questioná-los. não louvá-los nem desprezá-los. apenas vivê-los.
o marido bígamo, longe de suas duas famílias, numa praia deserta, especula com um pescador sobre fugir, mudar para lá, e assim talvez alcançar alguma paz. o pescador diz sem afetação nem presunção, “sei que morar aqui não é a solução”. seria a solução para um personagem de kar wai, não é aqui. ele toma coragem e conta sua vida dupla para a primeira mulher – a mais velha das três irmãs protagonistas. há choro, há dor e desespero. mas o tempo resgata a serenidade. depois da tempestade e do sofrimento, segue a vida. a dor e a angústia cedem, pouco a pouco. não há aquele sofrimento eterno ilustrado por kar wai, que faz seus protagonistas levarem todo o peso do mundo no peito. se precisamos viver nossos dramas, que seja sem hesitação.
do outro lado do mundo, dois verões traduzem as contradições humanas. queremos ser felizes, não queremos sofrer. queremos amor sem dor. kar wai nos mostra a inutilidade dessa busca. e nos lembra de como podemos complicar nossos dramas, e estender o sofrimento, tentando evitá-los. anh hung sugere que, quem sabe, a melhor forma de alcançar a tão sonhada felicidade seja abraçar os dramas da vida. basta simplicidade.

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sexta-feira, janeiro 13, 2006

impressões impressionantes - a solidão e o amor de frankie e johnny


acordei no meio da noite. fiz um chá, acendi um cigarro. e, sentado na sala, vestindo uma camiseta velha e puída, de caneca em punho, cotovelos sobre a mesa, fitei meu reflexo na janela fechada e percebi. lá estava eu, num quadro de hopper.
edward hopper nos ensinou o que é solidão. seus quadros nos arremessam no vazio das grandes cidades, nos mostram , janela a dentro, a melancolia do quartos desabitados, a indiferença entre as pessoas, o isolamento que podemos criar, mesmo imersos na multidão. quem nunca se sentiu personagem de hopper? quem nunca teve medo de voltar para a casa, tarde da noite, para evitar o opressivo vazio que estaria nos aguardando, e preferiu antes entrar num bar, num café, e juntar-se a outros desconhecidos no balcão, que também apenas aguardavam, indefinidamente, esse sentimento passar?
no filme frankie e johnny, de 1991, al pacino (johnny) confessa: tenho vontade de me matar quando penso que sou a única pessoa no mundo, preso nesse corpo, que nada faz a não ser esbarrar em outros corpos pelas ruas, sem nunca se conectar. precisamos nos conectar. precisamos nos conectar. frankie e johnny trata dessa solidão. mas também fala de como podemos rompê-la.
frankie (michelle pfeiffer) é garçonete num restaurante barato de manhattan. vive ilhada do mundo, em segurança, acompanhada apenas por sua tristeza. ao visitar a mãe, no inicio do filme, admite: talvez eu não seja a pessoa mais feliz do mundo. frankie vive uma prisão. construiu essa prisão, temerosa de se magoar de novo, de ser obrigada a enfrentar seus próprios sentimentos. prefere um vídeo cassete. prefere assistir ao mundo pela televisão.
johnny acaba de sair da prisão. de fato. e talvez por saber que toda prisão é uma morte em vida, tem vontade. anseia viver. como frankie, também é solitário. como frankie, também tenta simular a vida, e paga uma prostituta para apenas dormir abraçado a ele, na esperança de enganar o vazio. mas sabe que isso não basta.
johnny é contratado como cozinheiro no restaurante de frankie. os dois se conhecem. se apaixonam. mas frankie decide que não vale a pena. pesa as possíveis conseqüências, teme ser magoada. prefere a monotonia de pizzas e vídeos. falta a ela vontade. mais que isso, falta coragem.
sponville diz, coragem não é um saber, mas uma decisão, um ato. depende, unicamente, de nós. por isso é preciso coragem para pensar, como é preciso para lutar, ou se apaixonar e investir em sua paixão, ou amar e lutar por seu amor, porque ninguém pode pensar em nosso lugar, nem lutar nem amar por nós, e porque a razão não basta, nem a verdade, nem mesmo o amor, se não há ação. porque é necessário ainda superar em si tudo o que estremece ou resiste, tudo o que preferiria uma ilusão tranqüilizadora ou uma mentira confortável. é preciso lutar contra a morte em vida. o medo nos paralisa. a coragem triunfa sobre o medo, pelo menos tenta triunfar, e já é corajoso tentar. que virtude, de outro modo? qual vida? qual felicidade?
johnny ama frankie. não esconde isso. age. é tão ansioso em viver esse amor que a assusta. ele explica: tenho medo que você fuja, se esconda naquele lugar em que se sente tão segura, por isso sou tão intenso. mas o amor de johnny não quer apenas a paixão idealizada dos romances. não quer apenas o sexo fugaz ou a tensão do que lhe falta, o mistério, o eros sôfrego de romeu ou tristão. johnny quer compartilhar a vida. mas teme que frankie não tenha coragem de fazer o mesmo. conectar.
ao final do filme, sentado na cama de frankie, ele declara: tudo o que quero está nesse quarto. ele se sente feliz pelo simples fato de existir, saboreando aquele momento com a mulher que ama. deseja aquilo que já tem, e sabe ser esta a verdadeira felicidade. sem anseios, sem arroubos, sem sonhos ou amores platônicos. apenas alegria e realização. alegria da realização. mas frankie também deve se entregar ao amor que sente e abraçar o instante. johnny pede para que frankie não tenha medo. ela desabafa: eu tenho medo. medo de ficar sozinha, medo de não ficar sozinha. medo do que sou, do que não sou, do que posso me tornar, do que nunca me tornarei. não quero ficar no meu trabalho para sempre, mas tenho medo de deixá-lo. e estou tão cansada. tão cansada de ter medo.
o medo de frankie é o medo de todos nós. que nos impede de tomar atitudes, de tentar realizar os sonhos, de abrir janelas e portas. o tão seguro medo que nos faz construir muralhas e nos aprisiona a uma vida sem vida, à monotonia, à paralisia.
frankie resolve arriscar. na última frase do filme, ela sorri para johnny e pergunta, no matter what? sua pergunta na verdade é uma afirmação. bastava a ela coragem para decidir. e ela decide pelo amor. não importa o que aconteça. no matter what. sentados à janela – e a janela solitária de hopper deixa de parecer tão solitária –, escovando os dentes, frankie e johnny assistem ao nascer de um novo dia, e sabem que aquilo basta. tudo o que precisam está naquele quarto. e claire de lune, de debussy, que passeia discretamente ao longo do filme como um véu de amor e melancolia, enfim toca no rádio do apartamento e toma o ambiente, as ruas, a cidade. e confirma com suas notas como a simplicidade do amor pode varrer a solidão. basta coragem.

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domingo, dezembro 18, 2005

impressões impressionantes - o exílio, por waltinho e daniela


há algumas semanas, tive vontade de escrever sobre o poema "canção do exílio", de gonçalves dias, uma das pedras fundamentais da poesia brasileira. talvez por estar tão próximo de rever o rio, e pelo costume que tenho de considerar um exílio minha estada no cerrado - uma cruel meia verdade.
acabei não escrevendo, sorte minha. o que haveria de novo em falar desse poema? basta procurar na internet e verão como o assunto já foi - e ainda é - estudado, analisado, virado e revirado. sim, mistura exemplarmente saudade e nacionalismo. sim, dezenas de escritores nos últimos cento e cinquenta anos revisitaram a canção, de casimiro de abreu a oswald de andrade, de murilo mendes a torquato neto. carlos drummond, fagner. e, claro, tom jobim e chico, com sua sabiá - talvez os que melhor souberam reinventar o poema original.
alguns dias atrás, soube do recente lançamento do dvd "terra estrangeira", do walter salles e da daniela thomas, em comemoração dos dez anos do filme. e a velha canção do exílio voltou a minha mente. melhor filme brasileiro dos últimos dez anos - junto com lavoura arcaica - o filme do waltinho e da daniela também trata de exílio. mas vai além do poema de dias.
a saudade da terra natal - típica da obra de dias - está evidente na personagem de laura cardoso, mãe de paco - fernando alves pinto -, o protagonista do filme. morando em são paulo há anos, ela se sente estrangeira em nossas terras. vive apenas pelo sonho de um dia retornar à cidade onde nasceu, na espanha. briga com o filho por isso, "você não pode dizer esqueça san sebastian, como se fosse um capricho meu. é san sebastian que não me larga, paco." sua obsessão em voltar é tanta que morre quando desobre que nunca poderá concretizar seus planos. mas o filme de waltinho e daniela atravessa o exílio romântico e segue adiante.
com a morte da mãe - pátria mãe -, sua única família, seu lar, paco sente-se exilado. um exílio para além do lugar, desterrado na própria terra. com paco, há uma inversão da idéia romântica do exílio, na qual o poeta vive melancolicamente a sonhar com a terra natal. Aqui o sentimento de exilado se dá em sua própria casa. a situação de paco lembra um poema de quintana, chamado "uma canção":
Minha terra não tem palmeiras...
E em vez de um mero sabiá,
Cantam aves invisíveis
Nas palmeiras que não há.
(...)
Mas onde a palavra "onde"?
Terra ingrata, ingrato filho,
Sob os céus da minha terra
Eu canto a Canção do Exílio!

a sensação de não-pertencimento de paco o leva a uma atitude inusitada: adotar a cidade da mãe como seu porto seguro, como sua possível terra natal. paco une em san sebastian dois ideais: a pátria idílica, o saudoso lar - tendo saudades do que nunca viu -; e a terra prometida, sua pasárgada, onde será amigo do rei e todos os problemas desaparecerão.
seja por querer fugir do não-lugar onde vive, seja por tentar buscar algum reconforto nas lembranças emprestadas da mãe, paco inicia sua jornada. nela, conhece alex - fernanda torres. a busca atormentada de paco por san sebastian se contrapõe ao realismo cínico da moça. ocupada demais em sobreviver à dura realidade do exílio, alex não sonha. mas sofre. sofre com a incapacidade de ser aceita em portugal, seja pelo sotaque, seja pelo simples preconceito de ser brasileira. confessa logo no início do filme, "quanto mais tempo passa, mais me sinto estrangeira".
em um momento do filme, porém, alex percebe que não tem para onde voltar. vendera seu passaporte, seu marido está morto. para onde ir? diz ela "queria tanto voltar para casa". paco pergunta onde é sua casa. "não sei. aqui é que não é." alex acaba por se apaixonar por paco, e por seu sonho de uma pasárgada-pátria. juntos, talvez, possam construir sua própria casa.
waltinho e daniela brincam cruelmente com o destino da personagem mais humana do filme, a única que não consegue libertar-se da realidade que a circunda. alex não vive o desenraizamento despreocupado, irresponsável e onírico de seu marido - miguel, vivido por alexandre borges -, ou o sofrimento para além do humano da mãe de paco, ou mesmo o heroísmo trágico e melancólico de paco. entre os três arquétipos - o bufão, a mãe e seu eterno sofrimento, e o herói - alex acaba abraçando o último, seja por amor, seja por desespero. faz do amor desesperado por paco sua pátria.
a cena do navio encalhado na praia - que, segundo o próprio walter, deu origem ao filme - sintetiza a angústia do desterro, utilizando a medida certa de poesia e aridez. como voltar, como sair dessa praia deserta? da mesma forma, a sofrida canção final do filme, "vapor barato", nos lembra que devemos tomar aquele velho navio e partir, e insinua que talvez um dia voltemos, quem sabe, um dia.
náufragos em praia desconhecida, paco e alex se agarram à esperança de uma terra em que se sintam em casa. mas ela não virá. com paco moribundo em seu colo, dirigindo em uma estrada que leva nada a lugar nenhum, alex chora as últimas palavras do filme, num misto de promessa e desejo: "eu juro que um dia eu te levo pra casa, meu amor". coincidência ou não, gonçalves dias nunca tornou a ver sua pátria. vindo da europa, seu navio naufragou na costa brasileira. e a metáfora do navio encalhado ganha ainda mais força.
com "terra estrangeira", waltinho e daniela nos ensinam o que é exílio e seu sofrimento, e como podemos nos perder, mesmo em nossa própria terra. a dor de alex é a dor de saber que seu navio nunca virá. por mais que ela jure tragicamente ao seu amor que um dia o levará pra casa. a dor de saber que nunca voltaremos, pois não temos para onde voltar.

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terça-feira, dezembro 13, 2005

impressões impressionantes - o brilho e o feitiço

dia desses, conversei com um amigo sobre relacionamentos. falávamos de como é difícil aproveitar o momento presente, sobre como costumamos racionalizar tudo, e como tentamos antecipar o que pode acontecer e sofremos uma angústia eterna com isso. o papo me levou a um livro do andre comte-sponville, a felicidade, desesperadamente. a idéia básica do livro - que não li - é a de que devemos viver sem esperança, ou seja, sem esperar. viver o agora, sempre. a felicidade viria em aproveitar o presente, sem tergiversar, sem se angustiar sobre o que pode ou deve acontecer.
eu sei, não é nada fácil isso. papo interessante, mas, colocá-lo em prática, bem, são outros dobrões. mas o livro do sponville e o papo com o julio me lembraram de dois filminhos que tratam disso. um deles é uma comédia romântica despretencionsa chamada o feitiço do tempo - groundhog day. nela, phil connors (bill murray, em talvez sua melhor atuação até o recente encontros e desencontros), apresentador de previsão de tempo, se vê preso no mesmo dia. phil/bill acorda no mesmo dia, incessantemente, em uma cidadezinha onde foi gravar uma matéria para seu jornal. cada dia, bill acorda no mesmo lugar, presencia os mesmo acontecimentos. e passa a viver essa prisão no tempo e no espaço, sem perspectiva de que um dia possa libertar-se. tenta tirar proveito dela, provando todas as delícias e imoralidades possíveis. até elas cansarem. tenta se matar - kill phil, kill bill! -, mas continua acordando no mesmo dia, sempre.
a prisão eterna de bill remete a duas outras prisões conhecidas. uma é a prisão da vida mencionada no budismo - ou no hinduísmo, algo assim. o ser humano estaria condenado ao eterno ciclo do nascimento, vida e morte, revivido incansavelmente nas reincarnações. o eterno sofrimento do eterno retorno (não confundir com o eterno retorno de nietzsche, redentor), até, um dia, quem sabe, a ascensão e o nirvana. mas a prisão de bill é pior, pois ele tem memória. ele se lembra dos dias anteriores. e não há pior prisão que a prisão da memória do mesmo, num cruel e inesgotável dejá vu. o mesmo, sempre e sempre. e essa prisão lembra o mito de sísifo, condenado a rolar até o fim dos dias uma pedra para o alto de uma colina, quando essa pedra deslizaria morro abaixo e ele seria obrigado a rolá-la novamente, num moto contínuo semelhante a vida de bill no filme.
o que isso tem a ver com o livro do sponville? pensei cá com meus botões: ora, sísifo era o homem mais inteligente entre os homens - sisifo, sofos, sofia, saber. não poderia ser, então, a condenação dos deuses algo além de uma condenação, talvez uma provação, um teste? uma prova, para saber se o mais sábio dos homens poderia sobreviver, e viver, num mundo restrito a uma suposta repetição? se sísifo era o mais sábio entre os sábios, talvez ele fosse capaz disso, de rolar a pedra, sempre, como se fosse a primeira vez, de aprender, de arrancar o novo, de algo que pareceria ser uma simples repetição. e talvez, dessa forma, vivendo desesperadamente, sem pensar na possibilidade do que viria em seguida, acabaria por se livrar da prisão.
bill/phil, o morto vivo do filme, consegue. ao dar-se conta de que cada mesmo dia poderia não ser tão mesmo assim, ao resolver aprender, viver algo novo a cada dia - tocar um instrumento, fazer uma boa ação, conhecer novas pessoas, amar -, bill acaba por se livrar de sua prisão. o filme termina - para os que não viram, não leiam - com finalmente o dia seguinte surgindo. bill amanhece um novo dia. mas não seria necessário, pois ele já tinha alcançado isso. vivendo desesperadamente. sem almejar o amanhã.
e o que isso tudo tem a ver com relacionamentos? bom, aí entramos no outro filme, brilho eterno de uma mente sem lembranças - eternal sunshine of the spotless mind. nesse filme, joel - jim carey, mostrando por que é um dos melhores atores de sua geração (vai ter gente querendo me matar aqui, :-) ) - resolve apagar todas as lembranças de sua antiga namorada. vai a uma clínica, que lhe garante isso: apagar as lembranças relacionadas a uma pessoa. sua ex, clementine, já havia feito a mesma coisa - kate winslet, maravilhosa. o filme mostra o sofrimento e a dor de ter suas lembranças apagadas, sejam elas boas ou ruins. mas o tiro sai pela culatra, pois os dois se encontram, sem memória alguma um do outro, e se apaixonam de novo.
curiosamente, no final do filme - mais uma vez , não leiam -, os dois se deparam com a crueldade da velha moira, o destino: para apagar a memória, a clínica exige que se faça um relato de tudo o que desagradava na outra pessoa. características, manias, jeitos. num momento do filme, cada um ouve o relato feito pelo outro, enumenrando tudo o que mais odiava e achava insuportável no antigo companheiro. kate resolve partir da casa de joel, alegando que eles sabiam como tudo aquilo iria terminar, em alguns anos ele a acharia insuportável e vice-versa. e então surge a frase mais linda do filme, que pode redimir o sofrimento de todos. joel vira-se e diz: I don't care. eu não me importo. ele sabe que isso pode acontecer, mas a felicidade que sente no momento vale o risco. o que vale é o agora, e agora joel se sente realizado com clementine.
o eterno retorno no relacionamento entre joel e clementine se assemelha ao eterno retorno de bill. podemos viver presos a uma realidade modorrenta, que nos aterroriza com a possibilidade de se repetir sistematicamente. podemos sofrer por antecipação. ou podemos burlar esse jogo e viver o eterno retorno nietzschiano, em que o deslumbre pela vida nos joga um degrau acima, reinventando o mesmo, trazendo dentro da repetição incessante da vida a simples felicidade por estar vivendo, sem expectativas - como prega o livro de sponville. joel e bill tentam livrar-se da maldição de sísifo apostando no agora, no presente, e na felicidade, desesperadamente. e conseguem.

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